Contra O Homo Proletarius

Andreia Miranda

“Classe média é o atraso de vida! A classe média é a estupidez! É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista,” grita Marilena Chauí. A audiência aplaude. Discursando no Centro Cultural São Paulo no dia 13 de maio para o lançamento do livro Lula e Dilma, Marilena Chauí admite que sua oposição à classe média é motivada menos por massa cinzenta e mais pelas glândulas salivares: “Por que eu defendo esse ponto de vista? Não é só por razões teóricas e políticas. É porque eu odeio a classe média!” Segue o vídeo:

Para uma marxista como Marilena Chauí, a divisão da sociedade em classes com interesses irreconciliáveis não pode se reduzir a uma sopa de letrinhas A-B-C-D. Chauí não está defendendo a estagnação econômica do trabalhador brasileiro. O que ela critica em coerência com o marxismo clássico é considerar qualquer melhoria no padrão de vida da classe trabalhadora como a transição para uma nova classe social. Para um marxista, tratar o aumento quantitativo da renda como se fosse um salto qualitativo de classe seria como se, para um racista, um negro se tornasse branco apenas porque se mudou para o Leblon. Em vez de se olhar para a renda, as classes deveriam ser categorizadas por outros critérios, como sua posição em relação aos meios sociais de produção. Para realmente subir de classe, um trabalhador precisaria se apropriar dos meios de produção que exploram sua mão de obra e passar a extrair mais valia de outros trabalhadores. Mas se essa mobilidade vertical for generalizada, se todos os dias um grande número de trabalhadores virarem empresários, a teoria de luta de classes socialista perde seu sentido.

É difícil para um marxista aceitar que, em vez de ler Das Kapital e assistir às palestras da Marilena Chauí, os pobres brasileiros estão abrindo seus próprios negócios. E essa insubordinação ao status proletário está acontecendo nas regiões mais pobres das cidades brasileiras. Apenas nas favelas consideradas pacificadas, o Sebrae-RJ formalizou cerca de 1.700 empresas só em 2011. Não é pouca coisa em termos absolutos, mas trata-se de uma pequena fatia do capitalismo que está subindo os morros. O Sebrae-RJ estimava em 2012 que 92% dos negócios nas favelas continuavam atuando na informalidade.

O Complexo do Alemão no Rio quer ir mais longe e construir seu próprio templo capitalista: um shopping center em plena favela. Segundo o site da BBC,

Orçado em cerca de R$ 22 milhões, o novo centro comercial deve abrigar 500 lojas e tem previsão de inauguração para novembro. As obras ainda não começaram e o local exato onde será instalado o shopping ainda é incerto, mas uma característica já faz com que ele seja diferente dos mais de 800 empreendimentos do tipo espalhados pelo Brasil: 60% das lojas serão comandadas por moradores da favela.

Ao se tornarem seus próprios patrões em busca do lucro, esses moradores estão formando uma nova classe média. Da próxima vez que vier a BH, me coloco à disposição para levar Chauí ao Oiapoque. Talvez vendo de perto, ela deixe pra lá essa mania de chamar o sujeito que cria empregos e aumenta o poder aquisitivo dos pobres de “reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista.” Olha só a cara desses terroristas:

Será que o ódio de Marilena Chauí pela classe média é maior que seu amor pelos pobres? Se sim, as notícias de empreendedorismo na favela devem soar como um arrastão de mais valia. Quando uma pessoa deixa de ser uma empregada vivendo de salário e passa a ser uma empregadora vivendo de lucro, ela está traindo o processo do historicismo materialista. Quando Andreia Miranda monta uma venda de souvenires no Morro Dona Marta, quando Cristina da Silva Oliveira abre um albergue no Morro Chapéu-Mangueira, quando Carolina Pacheco dos Santos inaugura um café no Morro da Providência, cada uma delas está se distanciando do proletariado e se aproximando da burguesia. Essas mulheres estão se tornando potencial inimigas da humanidade.

A popularização das ideias marxistas prega a condenação dos pobres ao trabalhismo. Dentro do materialismo histórico de Karl Marx e Friedrich Engels, o trabalho humano se estabelecia como o patamar supremo alcançado pela evolução natural darwinista. Enquanto os demais animais já nascem com os instrumentos de sobrevivência em sua constituição física, a espécie humana precisa trabalhar para fabricar seus próprios instrumentos. O marxismo, em sua versão popular, substitui o homo economicus fechado na maximização de seu próprio bem-estar pelo homo proletarius fechado na sua condição de trabalhador.

A ideia de homo proletarius pode amarrar os pobres à imobilidade social do trabalhismo. Ela atribui a riqueza dos ricos à exploração, selando com vácuo ideológico o ar de empreendedorismo que os pobres precisam para deixar de ser pobres. Apenas rico pode empreender. Os pobres podem apenas trabalhar.

A retórica anti-empreededora faz mais mal ao pobre do que ao rico. Porque mesmo o rico marxista não vai jogar fora a oportunidade de se preparar para o mercado, de continuar os negócios da família ou de investir em ações. Essa instrução de como navegar pelo capitalismo já vem de casa.

Mas o pobre costuma ser pobre em parte porque sua família não soube como sair da pobreza. O caminho ao enriquecimento não é seu trajeto que o gilho do pobre faz de mão dadas com seus pais. É uma trilha nova que precisa ser desbravada. Quando jogamos os pobres contra o empreendedorismo, contra a classe média, estamos privando-lhes de oportunidades do crescimento econômico e social. Como diz Sowell em The Quest for Cosmic Justice, o anticapitalismo priva os pobres de adquirirem capital humano:

Para os atualmente menos afortunados membros da sociedade, os custos da inveja podem ser especialmente altos quando ela faz desviar seu intelecto e sua energia. Nas áreas onde as pessoas mais pobres carecem de capital humano – habilidades, educação, disciplina, visão – uma das fontes para adquirir essas coisas são as pessoas que prosperaram por essas formas de capital humano. Isso pode acontecer diretamente através da aprendizagem, conselhos, ou tutela formal, ou pode acontecer indiretamente através da observação, imitação e reflexão. No entanto, todas estas formas de fazer avançar a sair da pobreza podem acabar queimadas por uma ideologia de inveja que atribui a maior prosperidade dos demais à “exploração” de pessoas como eles mesmo, à opressão, ao preconceito, ou a motivos indignos, como “ganância”, racismo, etc. A aquisição de capital humano, em geral, parece fútil sob esta concepção e a aquisição de capital humano dos exploradores, dos avarentos, e dos racistas especialmente desagradável.

“O trabalho não é um dispositivo especificamente humano”, dizia o economista Ludwig von Mises, “é o que o homem tem em comum com todos os outros animais.”

Mises se opunha ao homo proletarius de Marx. Ele não via o homem como uma mera máquina material que trabalha, mas como um agente espiritual que cria. Quando o primeiro homem uniu duas rodas em um eixo, ele não estava apenas cumprindo uma tarefa trabalhosa. Ele estava realizando uma ação empreendedora.

O trabalho por si só não gera riqueza. Apenas o trabalho produtivo gera riqueza. O esforço de se levar um sorvete até a boca pode ser o mesmo de se levar um sorvete até a testa. É a razão humana que empregará nosso trabalho em direção à satisfação humana. O socialista que não entende essa distinção corre o risco de empobrecer seus ouvintes e ainda desperdiçar um sorvete.

A teoria econômica moderna ensina que o capital é mais que um substituto ao trabalho. Apenas o capital enriquece o trabalho humano. Como escreveu Mises, “não há outro método de aumentar os salarios do que ao se investir mais capital por trabalhador. Mais investimento de capital significa: dar ao trabalhador ferramentas mais eficientes.” O trabalhador brasileiro ganha pouco porque falta capital para deixar seu trabalho mais produtivo. Ou o morro se move até o capital, ou o capital se move até o morro. Uma forma de resolver o problema é aumentar o número de capitalistas, principalmente permitindo que mais pobres se tornem capitalistas. Se ao desejar que o capitalismo coma na mão dela, a dona de um albergue no Cantagalo aumenta o estoque de capital no morro, ela está de fato aumentando a comida na mão de seus vizinhos.

O trabalhismo do homo proletarius trata o trabalho mais como um fim em si mesmo e menos como um meio para o consumo. Preocupados em dividir a sociedade em classes antagônicas, seus defensores acreditam em tirar dos que têm capacidade para dar para os que têm necessidade. Capitalismo Para Os Pobres prioriza a capacitação dos necessitados, mesmo que esse progresso cause a ascensão de uma nova burguesia de ex-pobres. Não queremos um partido apenas para os trabalhadores, queremos um partido para todos os pobres, não importa o tamanho de seus sonhos ou a classe de suas ambições.

O velho socialismo quer os pobres de mãos abertas, prontas para a esmola política, ou de mãos fechadas, prontas para a revolução violenta. O novo capitalismo quer os pobres de mãos cheias, para poder consumir, produzir e empreender.

A Economia Do Céu E Do Inferno

Golden Rule

Talvez você já tenha ouvido alguma versão da seguinte parábola:

Um homem é transportado até o inferno e o inferno é um imenso banquete. Carnes e frutas e massas e doces cobrem uma longa mesa de ponta a ponta. Mas espera! Como é que as pessoas sentadas ao redor da mesa estão gemendo de fome? O visitante então repara que todos têm seus cotovelos dobrados para fora de maneira que não conseguem levar os talheres até a boca. Tanta abundância e, ainda assim, tanta aflição, lamenta.

O homem é então levado até o céu. Lá está outra mesa com os mesmos alimentos, e lá estão outras pessoas com os mesmos cotovelos invertidos. Mas no céu todos comem com satisfação. Cada pessoa alimenta quem está ao seu lado.

Ouvi essa alegoria pela primeira vez da boca de um cantor brasileiro. Caetano, ou Gil talvez Chico, contava essa estória em um dos comerciais da campanha Natal Sem Fome, que passavam na TV em 1994. A mensagem ficou comigo: o abismo entre o paraíso e a danação pode estar numa pequena diferença na forma como as pessoas reagem às mesmas circunstâncias. O inferno é o egoísmo dos outros, o céu é o altruísmo para com os outros.

Quando comecei a estudar economia e liberalismo, passei a rejeitar a parábola como representativa do lado negro da ética altruísta. Perdidos na beleza da metáfora, esquecemo-nos de que aqui na terra os seres humanos foram feitos com cotovelos que se voltam para dentro. Dobrá-los para fora não melhora a vida de ninguém. Os humanitários de TV pareciam querer construir seu céu quebrando nossos cotovelos até que todos sejamos obrigados a depender do braço alheio. O cotovelo humano voltado para dentro me parecia apenas mais uma evidência que o ser humano foi feito para servir a si próprio.

O significado real da parábola só se esclareceu quando fui ler Alexis de Tocqueville. O segundo livro de Democracia na América chama atenção para uma curiosa distinção americana. Enquanto na Europa aristocrática se falava das virtudes do sacrifício desinteressado, nos Estados Unidos democráticos as pessoas enfatizavam a utilidade pessoal nas doses diárias de pequenos sacrifícios. ”O amor esclarecido por si mesmos”, dizia Tocqueville sobre os americanos, “os leva sem cessar a se ajudar uns aos outros”. Ele chamava essa interseção entre caridade e utilidade de interesse corretamente compreendido, ou interesse esclarecido. Percebi que céu e inferno na parábola do cotovelo não contrastavam o altruísmo em oposição ao egoísmo, mas o interesse esclarecido em oposição ao interesse emburrecido.

Se as pessoas entenderem que o bem estar de seus vizinhos é contrário ao seu próprio bem estar, o interesse próprio pode lhes fazer mergulhar em “vergonhosas misérias”, dizia Tocqueville “com medo de sacrificar algo de seu bem estar à prosperidade de seus semelhantes”. Entender que servir ao próximo constitui parte do seu próprio bem estar firma a sociedade nas bases da cooperação humana.

Em linguagem de escolha racional, podemos dizer que os jogadores do inferno acham que estão em um dilema do prisioneiro. Aos seus olhos, o custo de servir ao próximo parece superar o benefício de ser servido. Uma mera mudança de percepção seria capaz de transformar o equilíbrio da fome infernal no equilíbrio da satisfação celeste. Basta esclarecermos nosso interesse próprio para que um dilema do prisioneiro passe a ser percebido como um jogo de coordenação.

Ao conjugá-la com o interesse esclarecido de Tocqueville, fui percebendo a profundidade econômica da parábola dos cotovelos. De certa maneira, todos nós humanos temos nossos cotovelos econômicos enrijecidos. Sozinhos, somos capazes de quase nada. Nem mesmo de fazer um lápis ou uma torradeira. Se tivéssemos que sobreviver em auto-suficiência, a maior parte da população mundial pereceria mais rapidamente que o menino do Into The Wild. É a cooperação econômica com outras pessoas que nos veste, alimenta, educa, e nos permite ver a vida como uma jornada em vez de uma curta agonia.

O fundamento econômico de toda a civilização, de qualquer sociedade humana, é a possibilidade de cooperação, “o fato de que o trabalho efetuado valendo-se da divisão do trabalho é mais produtivo que o trabalho solitário”, como escreveu Ludwig von Mises, “e o fato de que a razão humana é capaz de perceber esta verdade.”

Assim como a efetividade da cooperação não conseguiria existir se houvesse uma inimizade inata, uma inveja insuperável entre as pessoas, também os laços de amizade e o sentimento de empatia que imaginamos existir entre os habitantes do céu metafórico dependem da possibilidade dos ganhos mútuos da cooperação.

Esses ganhos mútuos da cooperação permitiram o progresso social que vimos nos últimos séculos. Se a escravidão fosse mais produtiva que o trabalho voluntário, as ineficientes sociedades abolicionistas iriam se tornar cada vez mais vulneráveis à dominação externa. Os abolicionistas de ontem teriam se tornado os escravos de hoje. A história tem demonstrado o contrário, que a vitória do abolicionismo é em parte uma vitória dos ganhos mútuos da cooperação humana.

A biologia chega a conclusões semelhantes quando percebe que a evolução das espécies não é apenas um exercício de competição, como também um alargamento da cooperação. Desde a cooperação entre bactérias que se unem dentro de uma mesma membrana até a cooperação entre vespas que dividem o trabalho entre a rainha e os operários. Os insetos que passaram a cooperar em colônias obtiveram mais sucesso que o resto. O psicólogo Jonathan Haidt explica que apesar dos “insetos coloniais representarem apenas 2% de todas as espécies de insetos, em um curto período de tempo eles dominaram os melhores locais para a alimentação e a reprodução, empurraram seus competidores para a margem e alteraram a maioria dos ecossistemas terrestres.”

Da mesma maneira, foram as nações mais cooperativas da Terra que acabaram atingindo grau mais alto de prosperidade e influência. Diferente “das sociedades de formigas, abelhas e vespas”, dizia Mises, “o traço característico da sociedade humana é a cooperação propositada.” Nós cooperamos de maneira consciente e deliberada para atingir determinados fins. O progresso econômico depende da expansão de nossa percepção empática e de nossa prática cooperativa. Por isso o cosmopolitanismo da cooperação humana trazido pela globalização é algo tão maravilhoso.

Quanto a assuntos da pauta do dia, a parábola dos cotovelos pode servir para explicar a mentalidade protecionista em geral, e, em específico, os entraves nas negociações multilaterais da OMC na rodada de Doha. Os políticos tratam acordos de cooperação internacional como a matriz do dilema do prisioneiro. Não importa se os países estrangeiros abrem ou fecham suas fronteiras à circulação de mercadorias; os governos nacionais sugerem que ‘o meu país sempre se dará melhor se mantiver suas barreiras levantadas’. O Brasil chega ao ponto de rever os termos do comércio com o México a partir do momento que as exportações das montadoras mexicanas ultrapassam as nossas. A diplomacia comercial é tão avessa à ideia de permitir que seus países sirvam aos demais que sequer percebem que a única forma para cada país prosperar é receber dos outros aquilo que ele não consegue produzir a tão baixo custo. Tome Suíça e Chile por exemplo. Os cotovelos suíços não conseguem produzir vinho e os cotovelos chilenos não conseguem produzir relógios. Mas os braços chilenos podem dar vinho aos suíços que lhes recompensam oferecendo-lhes relógios.

Assim como um marxista que vê seu trabalho intelectual na formação de consciência de classe, o liberal também pode se achar num projeto socrático de esclarecer às pessoas qual o seu interesse esclarecido (além de tentar mudar as instituições de modo que o interesse das pessoas seja praticado como se esclarecido). Parte do mal na política vem da ignorância dos que acreditam que seu interesse individual ou enquanto membro de um grupo é irreconciliável aos dos outros indivíduos ou grupos da sociedade. Cabe ao liberal fazê-las perceber que, ao servir aos demais, ela está servindo a si própria; que a bifurcação separando um céu de prosperidade de um inferno de pobreza está na diferença que Tocqueville encontrava entre a América e a Europa do seu tempo:

Não creio, tudo bem pesado, que haja mais egoísmo entre nós do que na América; a única diferença é que lá ele é esclarecido e aqui não. Cada americano sabe quando sacrificar parte de seus interesses particulares para salvar os demais; nós queremos salvar tudo e com frequência pomos tudo a perder.

Em vez de repetir os clichês daqueles liberais de egoísmo mesquinho, Capitalismo Para Os Pobres propõe expandir a abrangência da empatia e da cooperação humana para que alcancem os mais pobres da sociedade. Os ricos brasileiros não percebem que é do seu interesse que os pobres tenham acesso a trabalho, crédito, comércio, empreendedorismo e consumo. O Capitalismo Para Os Pobres se posiciona contra a atitude exclusivista do brasileiro em acreditar que os imigrantes do nordeste empobrecem as capitais do sudeste, que a inflação é causada pelo maior consumo da classe C, ou que o problema da infraestrutura  brasileira são os pobres comprando carros e passagens aéreas para engarrafar a rua e transformar o aeroporto numa rodoviária.

Enquanto pensarmos na estreiteza desse interesse emburrecido, os pobres continuarão reservados a uma segunda mesa abastecida com as migalhas que caem da mesa dos ricos. Realizar o Capitalismo Para Os Pobres é aumentar o número de cadeiras para que todos, pobres e ricos, alimentem-se do grande banquete da cooperação humana.

Do Your Job!

laranjas

“You should do your job!”, fala o comediante Louis CK para você de vinte anos que tem um emprego, mas faz tudo de má vontade. Veja o vídeo:

Um sujeito de vinte anos “não tem ideia de como o mundo funciona”. Se crê “interessante demais” para realizar trabalhos medíocres e “acha que merece algo melhor.” Merece tanto quanto uma laranja que só sabe chupar os nutrientes da árvore, diz CK:

Você não tem nenhuma habilidade nem nada para oferecer para ninguém no mundo. Por duas décadas você está apenas recebendo e sugando, educação e amor e comida e iPods, e sugando e julgando…

Alguns comediantes já foram acusados de roubar piadas de Louis CK. Vou aproveitar para acusar Louis CK de roubar a piada de um dos sujeitos mais engraçados do século XIX. Em Economic Harmonies, o economista Frederic Bastiat fazia sobre o estudante francês a mesma observação que CK faz hoje:

Ninguém pode negar que a sociedade coloca à sua disposição comida, roupa, alojamento, diversão, livros, instrução – uma imensa variedade de coisas que levaria um bom tempo só para explicar como foram produzidas, para não falar nada sobre como realmente produzi-las. E em troca de todas estas coisas que demandaram tanto trabalho, suor e dor, tanto esforço físico e mental, maravilhas de transporte, tantas invenções, transações… quais serviços nosso estudante prestou à sociedade? Nenhum.

Mas Bastiat não quer apenas fazer os estudantes se sentirem mal. Ele está interessado em responder a uma pergunta que raramente fazemos: como alguém pode ter acesso a tantos bens materiais, a tantas coisas que outras pessoas produziram sem gerar nada de valor econômico para a sociedade?

A resposta de Bastiat envolve uma complexa rede de divisão de trabalho, poupança, finanças e outros elementos do progresso capitalista:

O pai desse estudante, que era um médico ou um advogado ou um empresário já prestou serviços – talvez para a sociedade chinesa – e recebeu em troca, não serviços imediatos, mas certificados para serviços devidos, os quais pode exigir pagamento no momento e lugar e da forma que ele achar melhor. Hoje a sociedade está pagando por estes serviços passados e distantes; e, espantosamente, se nós fôssemos seguir em nossas mentes as correntes de transações incessáveis que teriam que acontecer antes que o resultado final fosse alcançado, ele deveria ver que cada um foi pago pelas suas dores; que estes certificados passados de mão em mão, às vezes se dividem em frações, às vezes combinadas em quantias maiores, até que pelo consumo do nosso estudante a conta total foi balanceada. Este não é de fato um fenômeno notável?

É mesmo notável que a humanidade tenha conseguido transformar o trabalho passado em títulos futuros a bens e serviços que chegam até nós. Todo o capital e as instituições que garantem nossa sobrevivência hoje é trabalho fossilizado ao longo de séculos.

A observação de Bastiat pode deixar o estudante admirado, mas será que o faz se sentir melhor por ser uma laranja parasita? Afinal, o que ele fez para merecer tudo isso além de nascer na época certa e no país certo?

Não há como pagar todas os membros das gerações anteriores pelo progresso econômico, científico e civilizacional que aproveitamos hoje em dia. Você não conseguiria fazer nem um lápis para escrever um cartão de agradecimento.

Mas há algumas maneiras de não se sentir uma laranja parasita. Uma delas é desmerecer a própria noção de mérito. Você pode acreditar, como dizia Rawls, que todos os atributos genéticos, sociais e econômicos de uma pessoa são arbitrários. Logo, ninguém nunca mereceu nada do que recebeu, muito menos merece alguma coisa de você.

Outra maneira é inverter o conceito de merecimento ao avesso e abraçar sem medo o padrão de distribuição marxista: de cada um de acordo com sua habilidade para cada um de acordo com sua necessidade. Como estudantes estão cheios de necessidades, mas sem muita habilidade, são os membros produtivos da sociedade que estão em dívida para com eles. O papel dos estudantes é cobrar essa dívida.

Mas há uma terceira maneira de lidar com essa questão de dívida social. O estudante pode aceitar seu papel de laranja parasita e trabalhar para que no futuro suas sementes se tornem as laranjeiras que irão nutrir novas laranjas.

“Há mais de uma forma de ser merecedor de algo,” escreve David Schmidtz em Os Elementos da Justiça. Talvez você concorde com Rawls que ninguém merece nada do que recebe porque ninguém foi responsável pela sociedade, época, família ou carga genética com que nasceu. Mas Schmidtz nos convida a deixar de lado o elemento compensatório do merecimento e focar no seu elemento promissório. Mesmo que você não seja a causa daquilo que recebeu até hoje, é possível se fazer merecedor: Às vezes merecemos X com base no que fazemos após recebermos X.

Você nunca conseguirá dar a sociedade humana mais do que ela te deu. Ainda assim pode haver mérito na forma como você lida com uma oportunidade recebida. Schmidtz dá um exemplo:

Dois estudantes recebem bolsas de estudo. Um se esforça ao máximo e tira notas excelentes. O outro passa o primeiro ano indo de uma festinha a outra até ser pega colando, o que determina sua expulsão da outra universidade. Estas duas condutas diferentes não nos dizem nada sobre qual dos dois era mais merecedor de ter recebido a bolsa de estudos?

Em vez de olhar para tudo o que você já consumiu da sociedade, vislumbre tudo o que você pode produzir para a sociedade. Faça parte da rede produtiva que continuará o progresso econômico por mais uma geração. Em vez de se perguntar, quem sou eu para merecer tudo isso, se pergunte, quem eu posso me tornar para ser merecedor de toda a educação, amor, comida e iPods que recebi de outras pessoas?

Exerça sua cidadania capitalista, e aja com a consciência de que os benefícios que você produz para a sociedade são maiores do que os custos que você impõe sobre ela. Ou, para abreviar, “do your job!”

A Intuição Que Não Sabe Calcular

cerebrodemanteiga

Responda rápido à seguinte pergunta:

Uma bola e um taco custam R$1,10
O taco custa um real a mais que a bola
Quanto custa a bola?

Respondeu?

O primeiro resultado que veio à sua cabeça foi 10 centavos, não foi? Agora aproveite para fazer a conta com calma e conferir o erro intuitivo. Se a bola custasse R$0,10, o taco sozinho custaria R$1,10 e os dois juntos custariam R$1,20. Dado que a bola custa X e o taco custa X+1, então 2X+1=1,10. Logo, a bola custa 5 centavos.

Quando o psicólogo Daniel Kahneman aplicou a questão a estudantes universitários nos Estados Unidos, “mais de 50% dos alunos em Harvard, MIT e Princeton deram a resposta intuitiva – e incorreta.” Kahneman usa o exemplo da bola e do taco em Rápido e Devagar para demonstrar que não basta inteligência para resolver as questões em que nossa intuição nos aponta a direção errada. Precisamos realizar um esforço mental aritmético para corrigir as sugestões erradas da nossa intuição.

Professores de Harvard também erram. Os economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart passaram os últimos dias sendo ridicularizados por seus críticos depois que um aluno da UMass descobriu omissões na tabela de Excel utilizada no influente paper “Growth in a Time of Debt”. Depois da correção, o crescimento econômico de países com dívidas em 90% do PIB deixa de ser recessivo e passa a ser visto como positivo. Rogoff e Reinhart têm inteligência analítica de sobra. Mas a detecção de falácias no dia a dia exige mais que habilidade lógica. Exige também cuidado e esforço cognitivo.

Passando da academia para a política, preste atenção no silogismo abaixo:

A inflação se mede pelo aumento de preço dos produtos.
Parte do preço dos produtos é imposto.
Logo,
Se reduzimos os impostos de alguns produtos, reduzimos a inflação.

Para a maioria das pessoas, talvez, esse raciocínio parece intuitivamente correto. Quando o governo faz cortes de impostos, ele está diminuindo o custo de um produto para seus consumidores. Esquecemos que quando se compra um produto mais seus impostos, estamos pagando por algo além do produto. Supostamente estamos financiando algum bem ou serviço que o governo comprará com o dinheiro do tributo. Retirar os impostos de um produto está na verdade diminuindo o que você está comprando. O economista Adolfo Sachsida explica em um vídeo exageradamente didático:

A incoerência entre intuição e lógica continua:

O preço do litro do etanol é menor que o do litro da gasolina.
Logo,
Aumentar a proporção de etanol em sua composição diminui o preço da gasolina.

Muitos também parecem concordar com essa conclusão – provavelmente aqueles que se esquecem de medir o preço do combustível em quilômetros rodados. Gasolina com mais etanol é menos eficiente e, portanto, um produto de qualidade inferior. Como essa mistura inferior atende pelo mesmo nome de gasolina, um aumento do preço real do combustível não precisa corresponder a um aumento do número exibido na bomba do posto.

O governo que combate a inflação diminuindo a qualidade da gasolina merece lugar nos manuais de economia, sob o título “controle de preços por deterioração de qualidade”. Estamos imitando os americanos que, durante a Segunda Guerra Mundial, escreve o economista David Handerson, “aumentaram a porcentagem de gordura nos hamburgueres” e “diminuiram o tamanho das barras de chocolate.”

Redução tributária e depreciação de qualidade podem ter apelo intuitivo como formas de solucionar a inflação, mas são práticas economicamente erradas. Tão erradas quanto a bola de 10 centavos. Se a história é um guia, governos começam manipulando os preços nos setores mais oligárquicos, estatais e controláveis, e a pressão inflacionária sobe na informalidade do varejo, onde o pobre faz suas compras. As causas assim como a solução da inflação são sempre monetárias.

Há um incentivo claro para que o Ministério da Fazenda pratique medidas de controle de preço. “Nos olhos do público, explica David Handerson, “o controle de preços desonera a autoridade monetária de responsabilidade pela inflação”.

Como resultado, as pressões sobre as autoridades monetárias para evitar uma recessão pode levar a uma continuação ou até a uma aceleração do crescimento excessivo da oferta monetária.

Handerson escreve isso em um verbete de enciclopédia. Não é nenhuma análise nova. É conhecimento tão antigo que já pode ser canonizado.

Diferente do problema da bola e do taco, falácias econômicas não se desmontam com a facilidade das quatro operações básicas. Não existem psicólogos nas escolas demonstrando aos alunos o funcionamento enganador da intuição humana em questões de política monetária. Professores de economia têm um trabalho de conscientização pública a fazer. Mais economistas deveriam seguir o exemplo do Sachsida. Até indo além: deveriam divulgar um abaixo assinado que mostrasse ao grande público o que pensam os economistas dos nossos políticos.

Diferente do problema da bola e do taco, nós de fato pagamos mais caro pelos erros elementares no combate à inflação.

O Paradoxo Dos Indicadores

Cidades Fantasmas na China

O Google faz regulares alterações no seu algoritmo de ranqueamento das páginas exibidas nos resultados de busca. O propósito é garantir que o conteúdo mais relevante apareça primeiro, corrigindo pontualmente as formas de manipulação do algoritmo por websites trapaceiros. A cada critério estabelecido como indicador de qualidade, os websites se modificam para melhor satisfazer o critério sem precisar melhorar a qualidade. Por exemplo, conteúdos melhores em geral recebem mais links a partir de outras páginas. Mas quando o número de links para uma página é tratado como um indicador da qualidade de conteúdo, sites de baixa qualidade começam a montar uma rede de páginas, todas de conteúdo inferior, linkando umas às outras. O indicador perde seu valor indicativo.

“Quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida.” Essa é a formulação mais comum da chamada Lei de Goodhart. O economista Charles Goodhart tinha em mente as metas econômicas estabelecidas pelos governos: “tão logo o governo tenta regular um grupo particular de ativos financeiros, eles deixam de ser indicadores confiáveis de tendências econômicas.” Por exemplo, se o governo brasileiro tenta controlar a inflação por meio do controle dos preços de um indicador como o IPCA, esse indicador torna-se menos confiável. Se o tomate se torna um proxy popular para a inflação, o governo tentará influenciar o preço do tomate para que ele reflita ainda com menos precisão o aumento inflacionário.

Eu entendo a Lei de Goodhart como a formulação específica de um problema genérico de nominalismo na política. Ela vai além de políticas macroeconômicas.

O blog Less Wrong lembra que a indústria soviética oferecia casos emblemáticos da aplicação da Lei de Goodhart:

Quando [uma fábrica soviética] tinha como meta o número de pregos produzidos, uma vasta quantidade de pequeninos e inúteis pregos eram fabricados. E quando a meta era na base do peso, produziam-se poucos pregos gigantescos. Quantidade e peso se correlacionam bem em um cenário pré-planejamento central. Depois que se tornaram metas (em diferentes momentos e períodos), perderam seu valor.

O governo brasileiro também serve de estudo de caso para a Lei de Goodhart na medida em que tenta planejar aspectos da sociedade. Por exemplo, a participação de uma minoria historicamente desfavorecida em vagas de cursos universitários costuma ser um bom indicador de tolerância e abrangência das oportunidades econômicas. Em sociedades tolerantes, o sucesso acadêmico está ao alcance até dos mais discriminados. Até que a entrada de minorias no ensino superior se torna uma meta do governo. A partir do momento em que se estabelecem cotas para minorias, a sociedade pode aumentar a participação das minorias em salas de aula ao mesmo tempo em que continua sem oferecer tolerância e oportunidades econômicas verdadeiras.

A proporção de pessoas matriculadas em instituições de ensino costuma ser uma boa medida do nível de educação. Em uma sociedade com alto valor de capital humano, alunos com capacidade de aprender frequentam aulas de professores com capacidade de ensinar. Até que o governo adota a meta (do Índice de Desenvolvimento Humano) de maximizar o número de cidadãos matriculados em instituições de ensino, do fundamental ao superior. As escolas são incentivadas a tratar as salas de aula como áreas de lazer e a aprovar o maior número de alunos, de maneira que a formação torna-se mais uma formalidade e menos uma empreitada intelectual. Aumenta-se o número de alunos em escolas sem assim aumentar o real conhecimento acadêmico ou técnico do país.

O PIB costuma ser uma boa variável de prosperidade. Em geral, quanto mais bens são “produzidos” na sociedade, melhor o nível de bem-estar de seus membros. Até que o aumento do PIB passa a ser uma meta política. O governo passa a realizar investimentos que aumentam o PIB, mas que não correspondem ao maior bem-estar humano, como a construção de pontes para lugar nenhum, de gastos militares extravagantes ou das cidades fantasmas que, conforme o vídeo abaixo, vêm sido construídas na China:

O número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza costuma ser um bom indicador da gravidade da miséria em um país. Renda baixa significa baixa produtividade e impossibilidade de consumo. Até que o governo passa a concentrar seus esforços para focar na linha da pobreza. Programas de transferências de renda reduzem a camada de pessoas abaixo da linha de pobreza sem aumentar a sustentabilidade dos pobres. A linha deixa de indicar a real capacidade de um país em erradicar a pobreza.

Como mitigar os efeitos da Lei de Goodhart? Uma opção é diminuir a confiança na capacidade planejadora do estado e permitir que empreendedores entrem em competição para descobrir métricas cada vez melhores. Entre o Google e as fábricas soviéticas há um oceano de capitalismo.

Andy Warhol E O Capitalismo Pop

Andy Warhol

Uma nova temporada de Arrested Development vai estrear no Netflix em maio. Ainda bem que o Netflix não sabe o quanto eu estaria disposto a pagar para acompanhar a família Bluth por mais 13 episódios. Pra falar a verdade, nem eu sei. Porque eu não tenho que fazer nenhum planejamento para ver se Arrested Development cabe no meu orçamento pessoal. Produzir e gravar uma série tem um custo milionário, mas o maior custo marginal de assistir uma série talvez seja o tempo gasto com a maratona de episódios.

Nenhum sistema econômico fez mais para garantir o acesso generalizado à arte e à cultura que o capitalismo. Ainda assim, a atitude default do artista é tratar o capitalismo como inimigo da arte e da cultura.

Andy Warhol foi uma exceção. Dizia que a característica mais fantástica dos Estados Unidos era que lá ”os consumidores mais ricos compram essencialmente as mesmas coisas que os mais pobres”. Warhol não apenas pintava o capitalismo. Ele também admirava o capitalismo e sua equalização do consumo:

Você está assistindo TV e vê uma Coca-Cola. Você sabe que o presidente bebe Coca, que a Liz Taylor bebe Coca, e aí pensa que você pode beber Coca também. Uma Coca é uma Coca e nenhuma quantidade de dinheiro pode te dar uma Coca melhor que aquela que o mendigo da esquina está bebendo. Todas as Cocas são iguais e todas as Cocas são boas. Liz Taylor sabe disso, o presidente sabe disso, o mendigo sabe disso e você sabe disso.

Na Europa, a realeza e a aristocracia comiam bem melhor que os camponeses – eles sequer comiam as mesmas coisas. Era perdiz para um, mingau para outro, e cada classe estava presa à sua comida. Mas quando a Rainha Elizabeth veio [aos Estados Unidos] e o Presidente Eisenhower comprou um cachorro quente para ela, estou certo de que ele se sentiu confiante que ela não poderia mandar entregar no Palácio de Buckingham um cachorro quente melhor que aquele que ele comprou para ela por talvez vinte centavos no estádio. Porque não existe cachorro quente melhor que um cachorro quente de estádio. Nem por um dólar, nem por dez dólares, nem por cem dólares ela poderia ter conseguido um cachorro quente melhor. Ela podia conseguir por vinte centavos assim como qualquer outra pessoa.

O capitalismo é capaz de realizar inclusão social em massa.

O governo brasileiro promete dar um vale de R$50 para os pobres consumirem cultura. Em comparação, Hollywood movimenta bilhões de dólares todos anos para que as obras dos artistas mais admirados de sua geração, como Martin Scorcese e Quentin Tarantino possam ser assistidos por Mark Zuckerberg e por Barack Obama e pela menina que acessa o Facebook da LAN house e pelo rapaz que lava carros no centro da cidade. Quem está fazendo mais pelos pobres?

Atores e cantores parecem viver uma tensão entre serem sustentados pelo capitalismo enquanto discursam contra o capitalismo. Andy Warhol, pelo contrário, acreditava que um grande empreendedor era também um grande artista:

Ser bom nos negócios é o tipo mais fascinante de arte. Durante a era hippie as pessoas menosprezavam a ideia de negócio – diziam “dinheiro é ruim” e “trabalhar é ruim”, mas fazer dinheiro é uma arte e trabalhar é uma arte e uma boa empresa é a melhor arte.”

O Adolescente No Campo Do Capitalismo

Picnic, 1955

Se o debate público não leva a economia até a adolescência, resta trazer a adolescência para dentro da economia.

O período de transição da infância para a idade adulta só consegue se prolongar sob certas condições econômicas. A adolescência é um luxo não acessível a sociedades passadas em que a renda das famílias cobria pouco mais que alimentação e moradia. Crianças logo tinham que virar adultos para sustentar a própria casa e, enquanto não viravam, elas estavam sob a tutela econômica dos adultos. Apenas com o crescimento econômico, os jovens começaram ter renda ao seu dispor sem a necessidade de responder pela manutenção da família. A adolescência é capacidade econômica sem responsabilidade econômica.

Os Estados Unidos dos anos 1950 viram essa autonomia econômica rapidamente formar um classe de demandas antes inexistentes. No blog Brain Pickings, citações do livro The Fifties de David Halberstram comentam essa era de transições:

Os jovens formavam sua própria comunidade. Pela primeira vez na vida americana eles estavam se tornando uma parte separada e definida da cultura: Como tinham dinheiro, eles eram um mercado, e como eram um mercado, passaram a ser ouvidos e atendidos.

Famílias podiam gastar mais com seus filhos e os filhos agora eram um público alvo de um mercado de publicidade que se expandia com a popularização da televisão. Além disso, a flexibilidade do mercado de trabalho americano permitia que jovens fossem mais facilmente empregados. Salários baixos demais para sustentar toda uma família bastavam para o consumo supérfluo de um garçom de 16 anos. No agregado, esses baixos salários se uniam para formar um novo segmento na economia americana:

Em 1956, os 13 milhões de adolescentes americanos tinham uma renda acumulada de U$7 bilhões ao ano, um impressionante aumento de 26% dos números de três anos antes.

A renda de um adolescente em meados dos anos 1950 era basicamente a renda que, quinze anos antes, toda uma família americana tinha ao seu dispor depois de pagar as contas básicas.

No passado, quando adolescentes americanos ganhavam dinheiro, seus rendimentos na maioria das vezes iam para ajudar a sustentar seus pais ou eram economizados para uma aquisição valiosa e muito desejada, como uma luva de beisebol ou uma bicicleta, ou eram reservados para pagar a faculdade.

Com maior autonomia econômica, veio também maior autonomia tecnológica e cultural. Os jovens que antes consumiam produtos culturais feitos para seus pais, com a permissão de seus pais, agora passavam a comandar “uma série de inovações tecnológicas” feitas exclusivamente para eles, como os “pequenos rádios de transistores vendidos a um preço que ia de U$25 a U$50.” Essa combinação de juventude com renda e tecnologia acessível criou produtos culturais feitos para a juventude. Criou o rock n roll:

Uma nova geração de americanos estava rompendo com os hábitos dos seus pais e se definindo pela sua música. Não havia nada que os pais pudessem fazer: era uma nova geração armada com dinheiro e com aparelhos baratos para ouvir música.

Elvis Presley, o primeiro grande beneficiário dessa nova economia adolescente, era censurado nos lares e nos púlpitos, mas não nas rádios. Pais preocupados que seus filhos estavam ouvindo música negra tentavam em vão controlar as demandas culturais dos filhos. E as rádios que não tocavam a música subversiva que os adolescentes queriam ouvir perdiam audiência. A censura moral não foi capaz de se converter em censura econômica.

Mas nem só de demanda vive a liberação econômica da adolescência. Vamos avançar até o presente. Se por um lado lamentamos o consumo adolescente, também temos razão para admirar o empreendedorismo adolescente. O alto grau de flexibilidade e prosperidade do capitalismo americano permite que jovens sem muita experiência ou cautela sejam capazes de financiar suas aventuras econômicas. O economista Tyler Cowen comenta:

Michael S. Dell vendia selos para colecionadores quando tinha 12 anos de idade e Bill Gates fundou a Microsoft aos 19. O Facebook foi criação de Mark Zuckerberg, na época um estudante no segundo ano da Universidade Harvard. Um estudo da Global Entrepreneurship Monitor mostrou que os Estados Unidos se destaca entre os países desenvolvidos por ter uma taxa de start-ups entre jovens de 18 a 24 anos maior do que entre adultos de 35 a 44 anos de idade.

A imprudência adolescente aplicada a novas empresas pode ser individualmente ruim, mas acaba sendo coletivamente benéfica. Grandes inovações dependem de empreendedores dispostos a se arriscar além do cálculo da razoabilidade. Será que hoje mesmo você já não utilizou de uma inovação que só existe graças à liberação econômica da adolescência?

Pobres Capitalistas Na Rússia Leninista

Bertrand Russell
Em 1920, Bertrand Russell se juntou a uma delegação oficial dos trabalhistas britânicos para visitar a Rússia pós-revolucionária. Apesar de socialista, Russell se percebia científico demais, erudito demais e, ele mesmo confessa, britânico demais para se identificar com os bolcheviques. Enquanto os outros membros da delegação voltaram satisfeitos do passeio, Russell manifestou uma dissidência cética e lamentosa em The Practice and Theory of Bolshevism.

Russell esperava encontrar um povo empenhado em realizar o projeto socialista de Lenin. Para seu pesar, o contato com os trabalhadores do campo lhe mostrou que os pobres russos estavam em busca de capitalismo.

“O que os camponeses querem é o que é chamado de livre comércio,” escreve Russell “isto é, o descontrole da produção agrícola”.

Russell teve a oportunidade de fazer uma visita exclusiva à Lenin, descrito como “uma teoria encarnada” de tanto zelo fanático. E foi o próprio Lenin que confessou a Russell durante uma conversa de mais de uma hora que praticar a repressão era necessário para combater a demanda de capitalismo pelos pobres:

Ele falava como se a ditadura sobre os camponeses tivesse que continuar por muito tempo, por causa do desejo do camponês pelo livre comércio.

Depois da tomada de poder, Lenin obteve algum sucesso realizando uma reforma agrária que tirou terra dos ricos para dar propriedade aos pobres camponeses russos. Os trabalhadores não ansiavam pela realização do materialismo histórico marxista, apenas queriam uma economia menos feudal e oligárquica. Como diz Alan Ryan, “se os líderes anti-bolcheviques tivessem tido a sensatez de comprar a boa vontade dos camponeses com um programa de reforma agrária, eles teriam vencido a guerra”.

Bertrand Russell encontrou pouco interesse e conhecimento dos camponeses em projetos que fossem além da comunidade local. “Depois de terem a própria terra”, diz Russell, “eles queriam que sua vila fosse independente, e ressentiam qualquer demanda feita pelo governo”.

Os trabalhadores russos queriam renda econômica, mas o que recebiam do governo era ração e controle de preços. “A teoria oficial é que o governo tem o monopólio da comida e que as rações são suficientes para sustentar a vida”, dizia Russell, mas o que ele percebia nas ruas de Moscou e Petrogrado era que “quase todo mundo, rico ou pobre, compra comida no mercado, onde custa cerca de cinquenta vezes o preço fixado pelo governo”.

Assim como praticamente qualquer outra proibição governamental antes ou depois de Lenin, o controle de alimentos produziu um efeito culatra:

A tentativa de suprimir o comércio privado resultou em uma quantidade de compras e vendas amadoras que excede em muito o que acontece nos países capitalistas.

Durante a noite, Russell ouvia sons de tiros que ele entendia ser de execuções, mas seus colegas de delegação diziam que era apenas barulho de canos de descarga dos automóveis. Talvez anestesiado pela crueldade generalizada, Russell demonstra alguma tolerância pelas práticas bolcheviques. Ele acredita que alternativa seria ainda pior, seria o capitalismo. Russell cita com desaprovação moderada a passagem de um relatório comunista anunciando as penas para os trabalhadores que buscavam alguma liberdade econômica, crime chamado pelos soviéticos de “deserção do trabalho”:

Uma parte considerável dos trabalhadores, em busca de melhores condições alimentares ou em geral com propósitos de especulação, voluntariamente abandonam seus locais de emprego… A maneira de combater isso é publicar uma lista de multas por deserção, a criação de um regimento de desertores e, finalmente, a internação em campos de concentração.

Esse socialismo para os pobres já desde cedo se contrastava com o capitalismo para os ricos da vanguarda revolucionária, que tinham “alimentos melhores que as outras pessoas” e outros privilégios:

Apenas pessoas de alguma importância política podem obter automóveis ou telefones. Licenças para viagens de trem ou para fazer compras nas lojas soviéticas (onde os preços eram cerca de um cinquenta avos do valor de mercado), para ir ao teatro, e assim por diante, eram mais fáceis de obter para os amigos daqueles no poder do que para os pobres mortais.

Apesar de contrário ao bolchevismo, descrito como um “delírio trágico, destinado a trazer sobre o mundo séculos de escuridão e violência fútil”, Russell não consegue se desvincular ideologicamente das medidas socialistas. Ele pondera que “os bolcheviques têm apenas uma parcela de responsabilidade limitada pelos males dos quais a Rússia vem sofrendo.” Russell faz parte da tradição socialista de fazer concessões ideológicas à miséria e ao sofrimento humano. Mas ele já percebia que ditadura do proletariado era apenas uma expressão marxista que permitia aos governantes praticar capitalismo para os ricos e socialismo para os pobres:

Os simpatizantes da Rússia pensam que “proletariado” significa “proletariado”, mas que “ditadura” não significa bem “ditadura”. Isso é o oposto da verdade. Quando um Comunista russo fala de ditadura, ele usa a palavra no sentido literal, mas quando ele fala do proletariado, ele quer dizer… o Partido Comunista.

Para Todas As Outras

Há pelo menos duas modalidades de socialismo: violento e voluntário. Você é um socialista violento se quer ir contra a vontade das pessoas para forçá-las a fazer parte da sua comunidade socialista. Se, de outro modo, você acredita que as pessoas devem fazer parte da sua comunidade socialista por vontade própria, você é um socialista voluntário.

Talvez o mais conhecido exemplo de organização socialista voluntária do século XX tenha sido o kibutz. Nascidos junto com o estado de Israel, os kibutzim colocavam a união da comunidade sobre a exclusão da propriedade. Em seu auge, as tarefas e os bens deveriam ser compartilhados por todos os membros. Com o tempo, foram sendo abandonados pelas gerações mais jovens. Hoje se tornaram algo como condomínios para aposentados.

Rachel Johnson descreve para The Spectator sua experiência como voluntária em um kibutz há cerca de 30 anos. Em 1984, Rachel partiu com seu irmão Boris para Kfar Hanassi, um kibutz apelidado por ela de Animal Farm.

Como não podia operar na base dos contratos, o kibutz funcionava como uma sociedade de castas. Os residentes formavam a nobreza; os voluntários, a plebe. No meio, os libaneses apareciam como uma classe c. Eram os residentes que pegavam os trabalhos mais leves e, como ninguém é de ferro, pegavam os voluntários também. “Se você fosse um voluntário do sexo masculino”, lembra Rachel, “você via todo mundo dormir com todo mundo exceto com você”.

Nós do meio acadêmico somos menos promíscuos, mas costumamos sentir uma ponta de admiração por um experimento que menospreza coisas pedestres como o dinheiro e a troca. Imaginamos nossa busca por conhecimento pairando acima dos aspectos ordinários da vida comercial. E até que, em seus momentos mais sublimes, o trabalho acadêmico chega lá. Mas o dia a dia entre professores e pesquisadores nem tudo que reluz é marfim. A ausência de comércio não evita a competição por mundanices de cargos, bolsas, financiamentos, prêmios e, em último grau, por prestígio. Dá pra compreender o sentimento de Nassim Taleb quando diz que percebeu no meio acadêmico “um nível de inveja que eu quase nunca vi nos negócios”:

“Os acadêmicos (em particular os das ciências socials) parecem desconfiar um dos outros; eles vivem com obsessões mesquinhas, rancores gelados, com menosprezos que crescem até virar perseguições”.

Talvez você já tenha estado em ambientes parecidos em que, na ausência de dinheiro, as pessoas acumulam poupanças de poder ou vaidade. A alienação do dinheiro é mesquinha, e por isso mesmo é aliviante. Pagou, quitou. Dívidas em dinheiro, uma vez honradas, equalizam a relação entre as partes. Já dívidas em coisas abstratas como ‘reconhecimento’ e ‘crédito’ , diz Taleb acabam “criando uma atmosfera de rivalidade perpétua”.

Propostas irrecusáveis se constituem de dívidas impagáveis. Dever dinheiro à máfia pode custar sua vida, mas dever um favor custa sua alma. Muitas pessoas reclamam de religiões que pedem dinheiro aos fiéis. Mas nas seitas que terminam em tragédias, os líderes medem a fidelidade em favores de diferentes espécies.

Não adianta lutar pela coroa incorruptível de que fala o apóstolo Paulo nas arenas da vaidade humana. O caráter vira sinalização, um símbolo de status, algo que só tem valor em proporção ao dos demais. Na ausência de propriedade definida e alienável pelo dinheiro, resta-nos alienar aquilo que o dinheiro não compra, as coisas que a Declaração de Independência americana considerava inalienáveis: nossa vida, nossa liberdade e nossa busca pela felicidade.

Para evitar a humilhação da casta dos voluntários, Rachel Johnson confessa utilizar seu capital humano:

Eu tive que trocar o meu capital sexual limitado de uma Shiksa – uma loira não-judia em um país de Sabras morenas – pela liberdade, assim como os israelenses negociam terras por paz com os palestinos. Lancei-me adentro do escritório do coordenador, joguei minha juba de um lado pro outro, e choraminguei que eu não tinha vindo para a Terra Santa para ficar esfregando mictórios.

Kfar Hanassi se desviou da sua missão original. Rachel Johnson voltou ao kibutz esse ano. Os jovens abandonaram a sociedade para participar do crescimento econômico israelense – alguns se foram para o Wadi do Silício. Sobraram os velhos. Não há mais os jantares comunitários e festivos das lembranças de Rachel. Agora eles jantam em casa, na frente da TV. Há coisas que o dinheiro não compra nem deveria comprar, entre elas a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

Capitalismo Para Os Pobres E Seus Primeiros Descontentes

A mensagem de capitalismo para os pobres merece ser ouvida O estado brasileiro mantém de pé altas barreiras na porta de entrada da cooperação econômica. Quem tem baixa estatura econômica fica de fora. Fazemos do capitalismo um clube dos ricos. Os pobres se amontoam na porta dos fundos do socialismo, que se abre de quatro em quatro anos distribuindo as sobras assistencialistas.

Mas a mensagem do capitalismo para os pobres também precisa ser criticada. Sem feedback negativo, fica difícil desviar de erros possíveis e se livrar dos atuais. Até agora, poucos se manifestaram contra nossa mensagem. Mas essa pouca crítica tem sido, apesar de vaga, insistente no ponto de que o capitalismo não pode ser dado aos pobres porque é um sistema que necessita da desigualdade pela pobreza. Dizem, por exemplo:

“Para o capitalismo existir, ele tem que ser injusto e desigual. veja bem, ele TEM que ser.”
Ou
“Lógica do capitalismo: eu e você somos um país. Você tem 30 casas e eu nenhuma. Logo, cada habitante do pais tem 15 casas cada!”

Esse tipo de crítica costuma ser ignorada ou ironizada. Mas quando algo que parece bobo é repetido por muita gente, vale a pena arriscar uma resposta.

A segunda afirmação não é lógica capitalista alguma. É a lógica estatística mais elementar. Qualquer governo moderno calcula médias ponderadas e desvios padrão para tentar entender o que está acontecendo. O leitor aí não está descrevendo o capitalismo. Ele está descrevendo um socialismo onde ele é o estado. No socialismo totalitário, as casas têm um único dono, o estado, que distribui permissões aos cidadãos para residirem em sua propriedade. Adicione um pouco de capitalismo, e passa a ser necessário que o dono das 30 casas transforme sua propriedade em renda. No capitalismo, um imóvel por si só não é renda, e, sem renda, os imóveis apenas depreciam. O proprietário do exemplo pode transformar uma de suas casas em fonte de renda alugando-a para o destituído. Mas, para receber o aluguel, terá que permitir ou ajudar o destituído a se tornar rentável ele próprio.

Acho curioso que aqueles que criticam a competição desenfreada do capitalismo selvagem tentem definir o capitalismo pelo monopólio. O processo de mercado implica em uma tendência igualitária dentro da lógica da competição. Grandes oportunidades de lucro não se mantêm indefinidamente quando há competição. A possibilidade de livre entrada arrasta competidores em direção aos maiores lucros, diminuindo sua magnitude. Do lado da demanda, a possibilidade de competição permite que os consumidores utilizem de suas escolhas para escapar de empresas que abusem dos seus preços.

De forma alguma vou negar que essa tendência igualitária prevalece sobre as desigualdades humanas. Mas dizer que o capitalismo permite a desigualdade é diferente de dizer que o capitalismo empobrece para desigualar. Na verdade, o capitalismo é capaz de tornar nossas desigualdades mais aceitáveis porque elas geram benefícios para os consumidores, inclusive os mais pobres. As pessoas mais admiram do que odeiam alguém como Steve Jobs porque entendem que sua riqueza resultou do valor que ele criou para o resto do mundo. São as desigualdades premiadas como as do setor financeiro que acarretam animosidade pública. Nem os economistas conseguem explicar direito a forma como o valor gerado pelo setor financeiro corresponde aos lucros exorbitantes dos bancos. Isso ocorre porque o setor financeiro opera há muito tempo dentro da lógica do capitalismo para os ricos, socialismo para os pobres, com lucros privatizados e prejuízos socializados. Enquanto não percebemos que socialismo e capitalismo podem compartilhar da mesma sociedade, continuamos com os que querem conservar o sistema econômico atual com todas as suas desigualdades e privilégios, de um lado. Do outro, ficamos com os que querem substituí-lo por um sistema em que todos são igualmente dependentes de favores políticos.

O Capitalismo Para Os Pobres não revoga as diferenças entre as pessoas, mas, nele, as pessoas utilizam suas diferenças no serviço do bem comum. Em um estado de auto-suficiência, nossas diferenças seriam maldições. Faltariam ferramentas à família do agricultor e comida à família do ferreiro. O comércio transforma nossas maldições em bênçãos. Por causa da vantagem comparativa, o capitalismo favorece a cooperação e a associação. Mesmo que você seja melhor que eu tanto na ferragem como na agricultura, ainda assim vale a pena você se especializar no que eu sou menos pior, e depender da minha produção. A vantagem comparativa faz com que os mais fortes também dependam dos mais fracos. Até a pessoa menos talentosa da sociedade, que pode ser pior que todos em qualquer atividade, passa a ter valor para os demais por causa da lei da vantagem comparativa.

Os limites da lei da vantagem comparativa são os limites do mercado. Por isso, o capitalismo para os pobres tenta ser inclusivo ao máximo – quer estender aos menos favorecidos a oportunidade e os direitos de se apropriarem dos meios de produção, e capacitá-los para empregá-los de maneira efetivamente produtiva.

Capitalismo para os pobres é uma mensagem poderosa, que, em versão simplificada, cumpre a promessa social da esquerda com os meios econômicos da direita.