CPP em artigo do Valor Econômico

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Os libertários, ala mais radical do liberalismo, querem enterrar essa associação. Parte dos membros se coloca mesmo como “esquerda libertária”, posição até então desconhecida no Brasil. Seu foco é na erradicação da pobreza, nos custos que as regulamentações estatais impõem às camadas mais baixas e aos microempreendedores e em causas progressistas como casamento gay e liberação das drogas. Uma boa leitura nesse sentido é o blog Capitalismo para os Pobres, de Diogo Costa, professor do Ibmec-MG. É um liberalismo que não se opõe ao Bolsa Família, mas combate veementemente o BNDES, grande concentrador de capital e poder nas mãos de políticos e megaempresários.

O texto é do sempre lúcido Joel Pinheiro. Leia a íntegra do artigo “O que há de novo na “direita’” no site do Valor (apenas assinantes) ou nessa versão aberta.

CPP na Exame.com

Bandeira

Brasil no Mundo: Você produz o Blog “Capitalismo para os Pobres”. Qual o grande objetivo do Blog? E quais os desafios?

Diogo Costa: A Guerra Fria não terminou no triunfo do capitalismo sobre o comunismo. Em países como o Brasil, acabamos com capitalismo para os ricos, e socialismo para os pobres. O rico tem poder de consumo. Pode escolher o plano de saúde da sua família, a escola do seu filho, pode ter acesso a crédito barato, além de poder ser dono das suas coisas – da sua fonte de renda, da sua casa, do seu meio de transporte, dos termos dos seus contratos de trabalho. Já o pobre fica à mercê da propriedade socializada, do hospital sem remédios, da escola sem reprovação, das mercadorias supertributadas, do transporte coletivo, da legislação trabalhista não negociável. O pobre brasileiro passa a vida dependendo de favores do estado, e saber manipular essa dependência é a habilidade de todo político de sucesso. Dar capitalismo para os pobres é capacitá-lo a produzir, empreender, comercializar e consumir com padrões capitalistas.

Esse é um trecho da entrevista de Diogo Costa para Fábio Pereira Ribeiro, publicada na Exame.com. Confira toda a entrevista no blog Brasil no Mundo. Abaixo, mais um pedaço:

O Brasil prometeu ao mundo barris de petróleo e entregou latinhas de cerveja. Programas públicos foram capazes de aumentar o consumo de milhões brasileiros, mas sem um equivalente aumento da sua produtividade. De 2002 a 2013, a produtividade do trabalhador brasileiro aumentou apenas 12%. Os peruanos, que no mesmo período aumentaram sua produtividade em 46%, já nos ultrapassaram. O trabalhador chinês, que em 1960 produzia 10 vezes menos que o brasileiro, aumentou sua produtividade em 153% desde 2002 e agora já está em pé de igualdade com a gente. No longo prazo, já dizia Paul Krugman, “produtividade é quase tudo”. E o longo prazo chegou.

Do Socialismo Profético Ao Socialismo Experimental

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Seus avós tomavam leite integral, mas o chamavam apenas de leite. Seus pais faziam ligações de telefone fixo, mas o chamavam apenas de telefone. Você talvez assistisse TV aberta quando chamávamos os canais apenas de TV. Depois que começamos a beber leite desnatado, ligar de telefone celular e assistir TV a cabo, nossa comunicação ganhou uma dose de ambiguidade. Passamos a criar os chamados retrônimos, neologismos que adjetivam um termo original para que ele possa manter, em nova versão composta, o mesmo significado que possuía anteriormente.

Sabão em barra, câmera de filme, relógio analógico, caneta tinteiro, estrada de chão, forno convencional… são todos exemplos de retrônimos – todos neologismos criados para identificar o que a tecnologia tornou ambíguo. Maus candidatos a retrônimos futuros são “automóvel a combustão” e “impressora 2D”.

Mas nem só de tecnologia se compõem os retrônimos. “Monarquia absolutista”, por exemplo, é uma retronímia política decorrente do advento do Estado de Direito e da propagação do constitucionalismo. “Propriedade privada” também é um retrônimo que os autores do século XVIII parecem usar para identificar o que no século anterior John Locke e Jean-Jacques Rousseau chamavam apenas de “propriedade”.

Karl Marx era craque em usar o poder retórico dos retrônimos a seu favor. Cunhou o termo “economistas clássicos” para, com algum decoro, empurrar a estante de Turgot, Smith, Say e Ricardo da biblioteca para o museu, manobra que, por consequência, faria do próprio Marx o divisor de águas da história econômica.

Tratamento ainda menos generoso receberam os socialistas do século XVIII e XIX. Textos como Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico de Friedrich Engels agruparam Saint-Simon, Robert Owen, Charles Fourier e outros sob o véu desabonador do “socialismo utópico”, mantendo-os assim separados, pela distância que há entre o sonhador e o vigilante, da versão histórico-materialista autodenominada “socialismo científico”.

Quem tem retronomia não precisa de refutação. Quem é que, quando confrontado com a escolha entre utopia e ciência, não prefere ficar do lado da ciência? É preciso ignorar essa taxonomia sugestiva para percebermos que, ao contrário do que sugerem os marxistas, alguns de seus antecessores utópicos estavam mais próximos da ciência experimental que Marx. Joshua Muravchik faz esse ponto em ensaio citado por Bryan Caplan:

Owen e os outros comunitários na verdade criaram experimentos para testar suas ideias. A experimentação é a essência mesma da ciência. Eles foram os verdadeiros socialistas científicos.

Havia em pessoas como Robert Owen a ambição empírica que anima o espírito científico – apesar de que seus experimentos não tenham sido lá tão bem sucedidos. Muravchik fala que em 1824 Robert Owen viajou da Grã-Bretanha para os Estados Unidos decidido a fundar suas próprias comunidades socialistas. De um grupo religioso, comprou terras às margens do Rio Wabash para então povoá-lo. O terreno incluía casas, fazendas e 20 oficinas produtivas que vendiam para o resto dos Estados Unidos. Apesar do lugar escolhido já vir com certo grau de desenvolvimento, Muravchik diz que “em um ano depois de adquirir o lugar, Owen e seus milhares de seguidores haviam transformado essa pequena Suíça em uma Albânia.”

Pode ter sido um fracasso, mas é melhor testar e fracassar que teorizar eternamente sem jamais reconhecer fracasso. Em vez de testar hipóteses, marxistas fazem profecias fundamentadas nas leis inexoráveis da história que deveriam varrer o capitalismo burguês da face da terra através da culminação dialética de uma luta de classes de determinação cósmica. Sabe como é: “ciência”.

Ao reconhecer critérios de testabilidade para suas teorias, o socialista dito utópico poderia ao menos tentar dialogar com seu oponente sobre qual a melhor maneira de reduzir a pobreza. Se retornassem a essa tradição, os socialistas poderiam unir forças com os liberais experimentais para que governos permitissem a criação de novos laboratórios sociais voluntários, como Cidades Modelo e Seasteading.

Seria menos nocivo testar em escala limitada, reconhecer fracassos e propor reformas do que proclamar sobre uma montanha de cem milhões de mortos que o verdadeiro socialismo nunca foi verdadeiramente tentado, mas que seu triunfo é inevitável.

O retrônimo correto não deveria ser “socialismo utópico”, mas “socialismo experimental”, como sugere Caplan. A abertura à experimentação é uma virtude de alguns socialistas pré-marxistas que poderia ser restaurada. Aí seriam os velhos marxistas que precisariam de um novo retrônimo. Meu voto vai para “socialismo profético”.

Por Que Os Militantes Se Voltaram Contra Os Manifestantes

Porque ortografia também deve ser coisa de "facista".

Porque ortografia também deve ser coisa de “facista”.

Independência partidária é analfabetismo político! Vandalismo é coisa de classe média conservadora! Se pintar de verde e amarelo é se decorar com as cores do fascismo!

Essas foram algumas das conclusões que os militantes mais engajados tiraram das manifestações brasileiras. Se estivessem certas, o Movimento Occupy seria um projeto analfabetização mundial, Oakeshott seria assinatura de pichador e o topete do Itamar deveria inspirar tanto pavor quanto a calvície do Mussolini.

A militância que ontem deflagrou a onda de protestos brasileiros hoje passou para a concorrência. Ela agora toma as ruas num esforço para substituir a espontaneidade massiva das manifestações pela organização tradicional de movimentos retrasados. Para evitar um progresso do debate público para temas e valores do século XXI, ela tenta manobrar a agenda política de volta para o século XX. Como se deu essa mudança? Essa pergunta se responde colocando o dedo no ponto onde psicologia, ideologia, retórica e estratégia se cruzam dentro da cabeça do perfeito militante latino-americano.

No The New York Times de 29 de abril, o colunista David Brooks traçou uma distinção entre escritores engajados e escritores desapegados.

O escritor engajado é aquele que “se alinha intimamente com um time”. Seu trabalho é “fornecer argumentos” a favor de seu partido, e apontar “os erros e transgressões” cometidos pelo outro lado. O engajado “está disposto a ser repetitivo” porque sua tarefa não é tanto persuadir o outro lado quanto mobilizar e “energizar as pessoas que já concordam” com ele.

Já o escritor desapegado “teme que a mentalidade de time ofusque sua visão.” Ele vê a política partidária “como uma competição entre verdades parciais”. Apesar de não ignorar a política, o escritor desapegado “prefere ter um impacto gradual” moldando as “percepções da realidade subjacente na esperança de proporcionar um contexto sobre o qual outras pessoas possam pensar”.

Brooks defende o desapego por ”uma questão de higiene mental”. Se um escritor desapegado corre o risco de se tornar “irrelevante” dentro do seu próprio “senso de superioridade”, o escritor engajado corre riscos maiores. O engajamento nos afasta da ciência, da busca desinteressada pela verdade.

Goethe dizia que “a consciência é a virtude dos observadores e não dos agentes de ação”. Brooks concordaria com Goethe, e por isso nos convida a permanecer observadores. Mas ele se esquece de que a preocupação com “consciência” e “higiene mental” já pressupõe um compromisso com primeiros princípios que falta ao protótipo do engajamento, isto é, a militância.

Só adianta usar a saúde no argumento a favor da penicilina quando o outro lado faz alguma distinção categórica entre a vida humana e a vida bacterial. O militante não renuncia sua campanha ao apelo de Goethe porque, na verdade, o militante já concorda com Goethe. Ele está disposto a sacrificar sua consciência porque entende que ”a ação é para a salvação em massa e não para a salvação pessoal do indivíduo.”

Saul Alinsky escreveu essa última frase em seu livro Rules for Radicals, de 1971 (versão PDF). Para a militância revolucionária, Rules for Radicals tem o papel que O Príncipe tinha para as autocracias renascentistas.

O que faz de Alinsky o Maquiavel da militância contemporânea. Com a diferença de que Maquiavel bajulava uma elite que o ignorava enquanto Alinsky, trabalhando como organizador comunitário de base, desprezava a elite de seu país até que ela passasse a reconhecê-lo. Barack Obama se inspirou em Alinsky quando se tornou um organizador comunitário. Hillary Clinton escreveu uma tese acadêmica intitulada “There Is Only the Fight . . . ”: An Analysis of the Alinsky Model.

Saul Alinsky

Saul Alinsky

Se Maquiavel é chamado de realista pela sua descrição avalorativa de como funciona o poder, Alisnky teria que ser chamado de surrealista político. O famoso slogan “os fins justificam os meios” atribuído a Maquiavel perde o significado na obra de Alinsky. Para ele, não há sequer “fins” objetivos que sirvam de critério legitimador dos instrumentos à disposição do agente. Fins podem justificar meios tanto quanto meios podem justificar fins, afinal o próprio conceito de justificativa já é instrumental para Alinsky. O militante deve compreender a moralidade como uma “racionalização retórica”, um “passaporte” para a ação: “faça o que puder com o que você tem e depois vista sua ação com roupas morais”.

“Dizer que meios corruptos corrompem os fins”, de acordo com Alinsky, “é acreditar na imaculada concepção de fins e princípios.” “Aquele que teme a corrupção teme a vida”, dizia. Fins e meios devem ser escolhidos e julgados e acordo com a atualidade da ação.

Pense na questão do vandalismo. Será que violência e depredação seriam meios legítimos para a ação política? Esse é o tipo de problema moral que perturba o observador, mas que se derrete no toque da militância. O discurso do militante se modela de acordo com a contribuição que um ato de vandalismo específico oferece para a realização de uma ação específica. Quando o vandalismo constitui a ação pretendida, a militância legitima a violência como uma resposta ao verdadeiro vandalismo dos hospitais sem remédios e das escolas sem professores. Quando o vandalismo prejudica a ação, ele passa a ser denunciado como uma óbvia demonstração de fascismo, mesmo que o militante do discurso presente e o vândalo da depredação passada sejam a mesma pessoa.

Seria esse o momento em que os militantes chegavam para apagar o fogo com suas bandeiras?

Ou talvez esse tenha sido o momento em que os militantes chegavam para apagar o fogo com suas bandeiras.

Por isso o discurso “sempre que houve uma revolução, foi com vandalismo”  virou o discurso que atribuía violência a grupos de extrema-direita. Por isso o movimento que se define em seu logotipo por um ato de vandalismo passa a assumir um discurso pacifista.

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Se o militante vai ser pacifista como Gandhi ou violento como Che Guevara depende apenas das circunstâncias presentes, principalmente dos meios que ele tem a sua disposição. Alinsky aprovava a maleabilidade moral de Lenin quando dizia aos revolucionários bolcheviques: “eles têm as armas e portanto nós somos a favor da paz e da reforma através da urna. Quando nós tivermos as armas, vai ser através da bala.”

Não se pinta uma revolução molhando o pincel numa consciência limpa. O seguidor de Alinsky se entende como “um relativista político”, um estrategista sem “uma verdade fixa - a verdade para ele é relativa e mutável; tudo para ele é relativo e mutável.“

“Fascismo” e “nazismo” são termos relativos e mutáveis. Quando o militante partidário atribui uma ideologia de extrema direita a seu oponente, ele não está descrevendo as raízes históricas que, por inspiração ou por analogia, explicam determinado comportamento. O xingamento apenas emprega a simbologia necessária para neutralizar um oponente político.

Em seus momentos mais ousados, a militância usa uma terminologia para significar seu exato inverso. É o que acontece quando manifestantes independentes e apartidários passaram ser tratados como discípulos do totalitarismo. Se o apartidarismo neutralizasse o PSDB ou o PT, eles seriam a favor. Como neutralizam o PSTU e o PSOL, são contra.

Há um ano e meio atrás, os mesmos militantes que denunciam o apartidarismo das manifestações brasileiras estavam acampando em praças públicas inspirados pelo apartidarismo do Occupy Wall Street. Como lembra essa matéria:

O protesto do Occupy Wall Street pode ser um movimento, um fenômeno momentâneo ou algo no meio termo, mas uma coisa que seus ativistas mais ferventes insistem é que ele não é uma tropa de choque para nenhuma campanha política partidária.

Um porta-voz do Occupy Wall Street chegou a dizer que se alguém tentasse dar uma direção partidária ao movimento, “haveria tantas pessoas que se recusam a aprovação de qualquer partido ou candidato que eu não acho que isso chegaria a acontecer”.

A rejeição do partidarismo que antes era fonte de inspiração agora é denunciada como autoritária, de direita, etc.  Parece contradição, mas é só militância. Alinsky explica citando o matemático Alfred North Whitehead: “na lógica formal, uma contradição é um sinal de derrota, mas na evolução do real conhecimento ela marca o primeiro passo do progresso em direção à vitória.”

Por isso militantes marxistas achavam lindo quando as pessoas se pintavam de verde e amarelo e saíam as ruas contra o Collor. Mas agora dizem que sair de verde e amarelo é coisa de fascista. Por isso diziam que eram pelo passe livre, mas quando as manifestações fugiram do seu controle, cancelaram as passeatas e disseram que 20 centavos estava de bom tamanho.

Não é que a militância se transforma. Ela própria é um órgão de transformação. A compreensão da dialética da política militante, dizia Alinsky, é vital:

Ela liberta-nos do mito de que uma abordagem é positiva e outra é negativa. Tal coisa não existe na vida. O que é positive para um homem é negative para outro. A descrição de qualquer procedimento como “positivo” ou “negativo” é a marca de um analfabeto político. Uma vez que a natureza da revolução é entendida a partir da perspectiva dualista, perdemos nossa mono-visão de uma revolução e passamos a enxergá-la juntamente com sua contra-revolução inevitável.

A militância é ao mesmo tempo reformista e contra-reformista. Assim como ela foi pró-manifestação e contra manifestação. Na verdade, ela se aquece do choque entre movimentos contrários. Alinsky dizia que a criança aprende a dualidade da política desce cedo, quando joga o pai contra a mãe para conseguir ficar acordada até mais tarde.

Não estou dizendo que os membros do Movimento Passe Livre, do PSTU e do PSOL leram Alinsky, ou estão conscientemente praticando seus ensinamentos. Da mesma forma que O Príncipe pode explicar a ação de um monarca que nunca leu Maquiavel, acredito que Alinsky oferece uma explicação para as atitudes dos militantes que desafiam observadores mais lógicos e racionais.

Também não tenho esperança de debater com militantes, apenas de esclarecer suas ações. Desde que descobri Rules for Radicals por acidente em 2002 (numa caixa de livros que não coube na mudança do meu cunhado), percebi que militantes não se abrem a discussões ponderadas. Na época, eu editava com meu amigo Gabriel Araújo o Nova Ordem Jovem (NOJO), um jornalzinho distribuído de graça na nossa universidade. Apesar de gratuito, o jornalzinho conseguiu comprar o ódio da União da Juventude Socialista, a tal UJS do PCdoB. Achei que, provocados, eles iriam partir para o debate. Em vez de argumentos, usaram sua influência para cancelar nossa participação no diretório estudantil e impedir que organizássemos debates que contariam com aliados da própria UJS.

Alinsky explica essa hostilidade. O militante não deve se “comunicar com ninguém puramente sobre a ética ou os fatos racionais de um assunto”. O debate constrói um chão comum de humanidade entre os debatedores. Sugere que a discordância entre o militante e seu oponente é factual ou lógica, que talvez alguém tenha cometido um lapso em seu raciocínio. A militância prefere projetar uma separação ontológica para com seus oponentes: “Os homens irão agir quando estiverem convencidos de que a causa deles está 100% do lado dos anjos e a oposição está 100% do lado do diabo”.

E o que isso tem a ver com pobreza?

Para o militante, o pobre só é um anjo enquanto permanece pobre. Se enriquece, vira um demônio. O sujeito que nasce pobre, mas que trabalha de noite para conseguir estudar no Senai de manhã com o sonho de um dia abrir o próprio negócio, estaria descendo a escada do inferno.

Quando os-que-não-têm atingem sucesso e se tornam os-que-têm, eles se colocam numa posição de tentar manter o que têm e sua moralidade muda com sua posição no padrão de poder.

Ao falar de Upton Sinclair’s Jungle, uma favela de Chicago que já foi considerada a pior de todos os Estados Unidos, Alinsky transforma o sucesso da comunidade em tragédia. “Com seu poder, eles lutaram e venceram”, diz Alinsky. Lamentável essa vitória, porque “como parte da classe média, eles também são parte da nossa cultura racista e discriminatória”.

Militantes falam em nome da pobreza enquanto abominam soluções que melhorem a qualidade de vida dos mais pobres. Querem o passe livre mesmo que isso implique que o pobre que só anda a pé pague pelo ônibus do adolescente de classe alta. Onde estava a comoção quando tiraram vans de circulação em várias cidades brasileiras? Onde estavam os cartazes contra o sistema de cartéis do transporte urbano?

Capitalismo para os Pobres combate a pobreza com as armas da riqueza. Quando capacitamos os pobres com produtividade, quando derrubamos barreiras institucionais e intelectuais ao empreendedorismo, quando fazemos do comércio um instrumento de inclusão econômica, as famílias brasileiras elevam seu padrão de consumo e passam a viver uma vida mais plena e autônoma. O vídeo do Pedro que, fabricando sabão, “de peão, hoje [virou] rei” é uma história de sucesso de capitalismo para os pobres. Os filhos do Pedro não precisarão depender de bolsas disso, vales daquilo, talvez sequer do Sebrae. Da perspectiva militante, histórias de prosperidade e independência anunciam uma tragédia. Pedro passou para o lado negro da força. Militantes revolucionários se fazem de amigos dos pobres, mas são apenas amigos da pobreza.

“Enquanto [os socialistas] têm um tipo de amor sentimental pela humanidade em seus corações, o ódio flui de seus lábios.” A frase é de Frédéric Bastiat, economista francês do século XIX. Bastiat entendia que as reformas sociais deveriam favorecer a “associação progressiva e voluntária” entre os membros de uma sociedade. Uma “associação mais próxima entre trabalho, capital e talento”, dizia, “deveria resultar em mais riqueza para a família humana e sua melhor distribuição”. O livro de Bastiat se chama Harmonias Econômicas.

Bastiat sentava-se à esquerda do parlamento francês, mas rejeitava a militância socialista que ele via nascer na Paris do século XIX. As campanhas pela cooperação entre indivíduos e povos que Bastiat e outros liberais radicais franceses avançavam desde o século XVIII passaram a enfrentar, além de conservadores saudosistas do Velho Regime, um novo movimento autoritário que desencadeava  “antagonismos fundamentais em todos os lugares”. Antagonismos, por exemplo, “entre capital e trabalho”, “entre agricultura e indústria”, “entre o produtor e o consumidor”, “entre o nativo e o estrangeiro”, “entre o trabalhador do campo e o morador da cidade”. Bastiat percebia que a natureza antagônica dos socialistas ia contra a ciência econômica, provocando crises contínuas na sociedade, e delas se alimentando. Era como se a oferta do socialismo criasse a sua própria demanda.

No alpinismo eterno do militante, o fim da pobreza seria um “blefe” e o “combate à pobreza” um fim em si mesmo. Existe apenas a luta… A perpetuação da pobreza não é um acidente da ação militante, mas sua práxis. “Nós vemos o topo da montanha ‘real’ na nossa frente, e lutamos por ele,” escreveu Alinsky, “apenas para descobrir que alcançamos mais um blefe, que o topo continua acima de nós. E assim se segue, interminavelmente”.

De certa maneira, Alinsky e Bastiat estão em precisa oposição. Bastiat queria a liberdade pela harmonia da ordem social. Alinsky encontra a liberdade nos conflitos da dialética revolucionária. O equilíbrio newtoniano contemplado por Bastiat é superado pelo darwinismo pragmático e inesgotável de Alinsky. A mudança pretendida pelo militante apenas ocorre quando há “aquela fricção abrasiva do conflito.”

É da fricção entre antagonismos que se acende a ação militante. Quando o fogo das manifestações saiu do controle da militância e começou a queimar as bandeiras dos próprios incendiários, restou aos militantes passar da reforma para a contra-reforma, como previa Alinsky. A luta sempre continua, só que agora contra o gigante-classe-média-fascista. A militância agora quer voltar a ter exclusividade nas ruas. Quer que o gigante volte a dormir. “A lei da mudança”, escreveu Alinsky, “deve preparar o anestesiamento da vítima antes de começar a cirurgia social”.

Quando O Brasil Ficou De Pé

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Lembra quando o Brasil era a potência da vez? Quando matérias sobre vinagre e pimenta se limitavam à seção culinária do jornal? Faz apenas dois ou três anos que o Brasil vivia a euforia de uma infância tardia. Tínhamos a Copa e as Olimpíadas, tínhamos o pré-sal e o Eike Batista. E tínhamos tudo isso fazendo capa de revista:

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Continuamos tendo tudo isso. Apenas percebemos que não temos muito mais que isso.

O Brasil começou a nova década sob um otimismo encantado. No deslumbrado ano de 2010, a imprensa anunciava que nosso futuro prometido finalmente havia chegado:

O Brasil está conseguindo o raro feito de extrair opiniões quase unânimes mundo afora. São poucos, pouquíssimos, os economistas que ousam discordar de que o País entrou em um ciclo de desenvolvimento sustentado. E mais: são ainda mais raros aqueles que duvidam da capacidade de o Brasil se tornar uma das maiores potências econômicas do planeta em um par de dezena de anos.

Não foi preciso “um par de dezenas de anos” para percebermos que as “opiniões quase unânimes” em 2010 estavam mais infladas que o mercado imobiliário americano em 2008. A bolha do Brasil Potência estourou. Hoje, é a voz dos “poucos, pouquíssimos” dissidentes que se amplia no eco das centenas de milhares marchando pelas ruas das capitais brasileiras.

O que mudou de 2010 a 2013? Institucionalmente, muito pouco. A grande mudança está na percepção do brasileiro. Descobrimos que a realidade não é bem aquela pintada pelo R$ 1,797 bilhão que o governo gasta por ano em propaganda. Não se faz pão de slogans políticos nem se educam crianças com cartilhas comemorativas.

Enquanto políticos e jornalistas nos diziam “Yes, nós somos potência”, nosso bolso nos dizia outra coisa.

Sí, nós somos pobres

Uma das minhas esquisitices é andar com o mapa da renda do Brasil num pen drive. É um mapa da The Economist que revela a qual país equivale a renda per capita de cada estado brasileiro. O resultado costuma surpreender amigos, principalmente gaúchos:

Mapa da renda per capita estados Brasil

O tamanho da nossa economia, a 6a. maior do mundo, faz os brasileiros se esquecerem de que riqueza se mede observando a renda de cada pessoa, de cada família. Uma multidão de pobres não se torna rica ao ser agregada sob um mesmo indicador econômico. Se PIB total indicasse riqueza, a Bahia seria considerada mais rica que o Distrito Federal, quando na verdade a renda no DF é cinco vezes maior que na Bahia. Quando olhamos para o poder de compra dos brasileiros, o país cai para a posição de número 76, atrás de países como Casaquistão e Irã.

Nossa ilusão também foi alimentada por investidores gringos. Empolgados em fazer parte dos BRICs, nem notamos que a sigla inventada por um chairman do Goldman Sachs reunia países com tão pouco em comum que só formavam um grupo através de uma manipulação fonética. Reparem que na década de 2001 a 2011, Rússia, Índia e China cresceram numa média de 8,4% ao ano. O Brasil, com uma média anual de 3,8% não chegou nem na metade disso.

Crescimento anual dos BRICs

Crescimento anual dos BRICs

Enquanto a economia crescia pouco, o custo de vida nas cidades brasileiras batia recordes. Até os investidores estrangeiros se assustam quando vêm ao Brasil. O indiano Ruchir Sharma ficou impressionado ao visitar o país e descobrir que:

Restaurantes em São Paulo são mais caros do que os de Paris. Quartos de hotéis custam mais no Rio que na Riviera Francesa. Os apartamentos no chique Leblon são vendidos por mais dinheiro do que os imóveis na Quinta Avenida de Nova York com vista para o Central Park.

“Se os preços locais em um país de economia emergente parecem caros até para o visitante de uma nação rica”, escreve Ruchir Sharma em Breakout Nations, “esse país provavelmente não é uma nação rumo à prosperidade”.

Quem mais perde quando o custo de vida sobe são os mais pobres. São eles que se assustam todo dia, que sentem seu valor diminuir dia após dia quando pagam aluguel, andam de ônibus, entram na escola, esperam no hospital, ou vão ao mercado fazer compras.

Copa do Mundo não paga as contas dos pobres. Além da dor no bolso, os brasileiros ainda têm que sentir a dor moral ao ver montanhas de dinheiro sendo transferidas para coisas tão supérfluas como eventos esportivos. Como escrevi em outro texto:

Nas PPPs, o governo consegue privatizar o lucro e a empresa socializar as perdas – capitalismo para os ricos/socialismo para os pobres em seu melhor. E isso não ocorre por acidente; está previsto na legislação de concessões especiais. Nessa modalidade de PPP, o governo se compromete a investir dinheiro no projeto e a ser solidário com o fracasso do setor privado, cobrindo eventuais prejuízos.

E o governo precisa dar esse estímulo ao setor privado porque o resto da economia não estimula o empreendedorismo. O Brasil assustava até Steve Jobs. Quando o Secretário de Cultura do Rio de Janeiro convidou a Apple abrir uma loja na cidade, Jobs disse que não. “A política maluca de taxação superalta do Brasil”, explicou Jobs, “faz com que seja muito pouco atraente investir no país. Muitas companhias de alta tecnologia se sentem assim”.

Batendo os 36% da economia doméstica, o Brasil é o país com a maior carga tributária do mundo em desenvolvimento. O brasileiro trabalha 150 dias por ano só para pagar imposto. E enquanto os asiáticos se deslocam a 400km/h sobre superfície urbana, o brasileiro aguenta meia hora só pra sair do ponto.

E ainda há quem ache que não há motivo para protesto?

O Brasil está de pé. Uma nova geração se levantou do sofá e tomou as ruas. E não são as borrachas balísticas que vão apagar esse ímpeto. Porque borracha não apaga o fogo, é o fogo que se alimenta da borracha.

Os céticos dizem que a onda de protestos não passa de um exercício de narcisismo coletivo, de patricinhas saindo mais cedo da Cultura Inglesa para fazer sua empregada chegar mais tarde em casa, de playboys dando golpes de Jiu-Jitsu no patrimônio público, de hipsters ideológicos com vocabulário retrasado falando de latifúndios urbanos e partying like it’s 1848.

De fato, definir a direção do descontentamento generalizado deve ser prioridade. O século passado já viu que ideias são capazes de derrubar muros, mas antes é preciso saber qual muro derrubar. Essa questão não se resolve gritando mais alto ou reunindo mais gente. O peso do martelo e o barulho da martelada não nos dizem se estamos golpeando a parede que nos priva do ar da liberdade ou a parede que nos protege das águas de uma represa.

Mas também não se resolve quando pessoas de boa vontade e boas ideias se colocam contra a maior manifestação de descontentamento político há mais de uma geração. Assim agiam os conservadores que, segundo GK Chesterton, impediam que os erros cometidos pelos progressistas fossem corrigidos. Meus amigos do pé atrás gostam de citar Burke, que dizia que a única coisa que o mal precisa para triunfar é as pessoas de bem não fazerem nada. Mas ao se recusarem a contribuir para o atual movimento estão exacerbando o temor de Burke. Estão garantindo que o discurso do vandalismo, do poder e da pobreza ganhe mentes e corações. Suas críticas funcionam como uma profecia auto-realizável.

Dizem que o protesto não é a maneira democrática de se reivindicar demandas sociais numa república constitucional. “Para isso existem eleições!” Mas esses amigos também protestam, e protestam diariamente. Só que protestam por meio do poder da escolha. Protestam contra um restaurante escolhendo comer no outro. Protestam contra a Veja escolhendo a Época; contra o BBB mudando de canal.

Se tratássemos o transporte aéreo como tratamos o transporte urbano, com apenas uma companhia monopolizando cada trecho, aposto que os ricos também iriam fazer barulho quando a TAM aumentasse a passagem Rio-São Paulo. Mas eles não precisam protestar nas ruas. Podem protestar escolhendo a Azul ou a Gol.

As companhias de ônibus das capitais brasileiras não concorrem pela preferência do consumidor. São monopólios. Concorrem pela concessão do governo. Quando não permitimos aos pobres protestarem com suas escolhas, resta a eles protestarem com suas pernas.

Se há um problema com o protesto, ele não está no ato de protestar, ou em protestar por passagens mais baratas. O problema está nos meios pelos quais o protesto vira proposta.

O Movimento Passe Livre quer entregar ainda mais poder para os monopólios. Querem que o pobre pague às companhias de ônibus até quando só anda a pé. Que pague quando compra feijão, pague quando compra roupa, que pague às companhias de ônibus por meio dos impostos. O passe aí é um passe de mágica que deixa os brasileiros sem saber o quanto de fato estão pagando (quantas pessoas sabem o quanto do dinheiro do seu imposto vai para as companhias de ônibus? Você sabe?). O custo do subsídio se esconde nos impostos e dá um passe livre para o governo aumentar o subsídio das empresas de ônibus sem a população sequer perceber.

Os brasileiros devem ter passe livre para consumir, passe livre para empreender. O brasileiro é um povo criativo, empreendedor. Cai uma chuva, lá vem um empreendedor popular te oferecer uma sombrinha. Abre o sol e ele te oferece uma água gelada. O brasileiro empreende em qualquer lugar. Empreende na praia, empreende no engarrafamento, empreende na internet. Mas não pode empreender no transporte urbano, nem na Copa, nem na educação. Aí tem que ser monopólio. “Claro que não é em benefício das companhias nem dos políticos”, dizem. “É monopólio em benefício do povo!”

Destruir ônibus em protesto contra a passagem é como esmagar tomate em protesto contra a inflação. Minha esperança é que os manifestantes parem de quebrar ônibus e comecem a quebrar monopólios!

Contra O Homo Proletarius

Andreia Miranda

“Classe média é o atraso de vida! A classe média é a estupidez! É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista,” grita Marilena Chauí. A audiência aplaude. Discursando no Centro Cultural São Paulo no dia 13 de maio para o lançamento do livro Lula e Dilma, Marilena Chauí admite que sua oposição à classe média é motivada menos por massa cinzenta e mais pelas glândulas salivares: “Por que eu defendo esse ponto de vista? Não é só por razões teóricas e políticas. É porque eu odeio a classe média!” Segue o vídeo:

Para uma marxista como Marilena Chauí, a divisão da sociedade em classes com interesses irreconciliáveis não pode se reduzir a uma sopa de letrinhas A-B-C-D. Chauí não está defendendo a estagnação econômica do trabalhador brasileiro. O que ela critica em coerência com o marxismo clássico é considerar qualquer melhoria no padrão de vida da classe trabalhadora como a transição para uma nova classe social. Para um marxista, tratar o aumento quantitativo da renda como se fosse um salto qualitativo de classe seria como se, para um racista, um negro se tornasse branco apenas porque se mudou para o Leblon. Em vez de se olhar para a renda, as classes deveriam ser categorizadas por outros critérios, como sua posição em relação aos meios sociais de produção. Para realmente subir de classe, um trabalhador precisaria se apropriar dos meios de produção que exploram sua mão de obra e passar a extrair mais valia de outros trabalhadores. Mas se essa mobilidade vertical for generalizada, se todos os dias um grande número de trabalhadores virarem empresários, a teoria de luta de classes socialista perde seu sentido.

É difícil para um marxista aceitar que, em vez de ler Das Kapital e assistir às palestras da Marilena Chauí, os pobres brasileiros estão abrindo seus próprios negócios. E essa insubordinação ao status proletário está acontecendo nas regiões mais pobres das cidades brasileiras. Apenas nas favelas consideradas pacificadas, o Sebrae-RJ formalizou cerca de 1.700 empresas só em 2011. Não é pouca coisa em termos absolutos, mas trata-se de uma pequena fatia do capitalismo que está subindo os morros. O Sebrae-RJ estimava em 2012 que 92% dos negócios nas favelas continuavam atuando na informalidade.

O Complexo do Alemão no Rio quer ir mais longe e construir seu próprio templo capitalista: um shopping center em plena favela. Segundo o site da BBC,

Orçado em cerca de R$ 22 milhões, o novo centro comercial deve abrigar 500 lojas e tem previsão de inauguração para novembro. As obras ainda não começaram e o local exato onde será instalado o shopping ainda é incerto, mas uma característica já faz com que ele seja diferente dos mais de 800 empreendimentos do tipo espalhados pelo Brasil: 60% das lojas serão comandadas por moradores da favela.

Ao se tornarem seus próprios patrões em busca do lucro, esses moradores estão formando uma nova classe média. Da próxima vez que vier a BH, me coloco à disposição para levar Chauí ao Oiapoque. Talvez vendo de perto, ela deixe pra lá essa mania de chamar o sujeito que cria empregos e aumenta o poder aquisitivo dos pobres de “reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista.” Olha só a cara desses terroristas:

Será que o ódio de Marilena Chauí pela classe média é maior que seu amor pelos pobres? Se sim, as notícias de empreendedorismo na favela devem soar como um arrastão de mais valia. Quando uma pessoa deixa de ser uma empregada vivendo de salário e passa a ser uma empregadora vivendo de lucro, ela está traindo o processo do historicismo materialista. Quando Andreia Miranda monta uma venda de souvenires no Morro Dona Marta, quando Cristina da Silva Oliveira abre um albergue no Morro Chapéu-Mangueira, quando Carolina Pacheco dos Santos inaugura um café no Morro da Providência, cada uma delas está se distanciando do proletariado e se aproximando da burguesia. Essas mulheres estão se tornando potencial inimigas da humanidade.

A popularização das ideias marxistas prega a condenação dos pobres ao trabalhismo. Dentro do materialismo histórico de Karl Marx e Friedrich Engels, o trabalho humano se estabelecia como o patamar supremo alcançado pela evolução natural darwinista. Enquanto os demais animais já nascem com os instrumentos de sobrevivência em sua constituição física, a espécie humana precisa trabalhar para fabricar seus próprios instrumentos. O marxismo, em sua versão popular, substitui o homo economicus fechado na maximização de seu próprio bem-estar pelo homo proletarius fechado na sua condição de trabalhador.

A ideia de homo proletarius pode amarrar os pobres à imobilidade social do trabalhismo. Ela atribui a riqueza dos ricos à exploração, selando com vácuo ideológico o ar de empreendedorismo que os pobres precisam para deixar de ser pobres. Apenas rico pode empreender. Os pobres podem apenas trabalhar.

A retórica anti-empreededora faz mais mal ao pobre do que ao rico. Porque mesmo o rico marxista não vai jogar fora a oportunidade de se preparar para o mercado, de continuar os negócios da família ou de investir em ações. Essa instrução de como navegar pelo capitalismo já vem de casa.

Mas o pobre costuma ser pobre em parte porque sua família não soube como sair da pobreza. O caminho ao enriquecimento não é seu trajeto que o gilho do pobre faz de mão dadas com seus pais. É uma trilha nova que precisa ser desbravada. Quando jogamos os pobres contra o empreendedorismo, contra a classe média, estamos privando-lhes de oportunidades do crescimento econômico e social. Como diz Sowell em The Quest for Cosmic Justice, o anticapitalismo priva os pobres de adquirirem capital humano:

Para os atualmente menos afortunados membros da sociedade, os custos da inveja podem ser especialmente altos quando ela faz desviar seu intelecto e sua energia. Nas áreas onde as pessoas mais pobres carecem de capital humano – habilidades, educação, disciplina, visão – uma das fontes para adquirir essas coisas são as pessoas que prosperaram por essas formas de capital humano. Isso pode acontecer diretamente através da aprendizagem, conselhos, ou tutela formal, ou pode acontecer indiretamente através da observação, imitação e reflexão. No entanto, todas estas formas de fazer avançar a sair da pobreza podem acabar queimadas por uma ideologia de inveja que atribui a maior prosperidade dos demais à “exploração” de pessoas como eles mesmo, à opressão, ao preconceito, ou a motivos indignos, como “ganância”, racismo, etc. A aquisição de capital humano, em geral, parece fútil sob esta concepção e a aquisição de capital humano dos exploradores, dos avarentos, e dos racistas especialmente desagradável.

“O trabalho não é um dispositivo especificamente humano”, dizia o economista Ludwig von Mises, “é o que o homem tem em comum com todos os outros animais.”

Mises se opunha ao homo proletarius de Marx. Ele não via o homem como uma mera máquina material que trabalha, mas como um agente espiritual que cria. Quando o primeiro homem uniu duas rodas em um eixo, ele não estava apenas cumprindo uma tarefa trabalhosa. Ele estava realizando uma ação empreendedora.

O trabalho por si só não gera riqueza. Apenas o trabalho produtivo gera riqueza. O esforço de se levar um sorvete até a boca pode ser o mesmo de se levar um sorvete até a testa. É a razão humana que empregará nosso trabalho em direção à satisfação humana. O socialista que não entende essa distinção corre o risco de empobrecer seus ouvintes e ainda desperdiçar um sorvete.

A teoria econômica moderna ensina que o capital é mais que um substituto ao trabalho. Apenas o capital enriquece o trabalho humano. Como escreveu Mises, “não há outro método de aumentar os salarios do que ao se investir mais capital por trabalhador. Mais investimento de capital significa: dar ao trabalhador ferramentas mais eficientes.” O trabalhador brasileiro ganha pouco porque falta capital para deixar seu trabalho mais produtivo. Ou o morro se move até o capital, ou o capital se move até o morro. Uma forma de resolver o problema é aumentar o número de capitalistas, principalmente permitindo que mais pobres se tornem capitalistas. Se ao desejar que o capitalismo coma na mão dela, a dona de um albergue no Cantagalo aumenta o estoque de capital no morro, ela está de fato aumentando a comida na mão de seus vizinhos.

O trabalhismo do homo proletarius trata o trabalho mais como um fim em si mesmo e menos como um meio para o consumo. Preocupados em dividir a sociedade em classes antagônicas, seus defensores acreditam em tirar dos que têm capacidade para dar para os que têm necessidade. Capitalismo Para Os Pobres prioriza a capacitação dos necessitados, mesmo que esse progresso cause a ascensão de uma nova burguesia de ex-pobres. Não queremos um partido apenas para os trabalhadores, queremos um partido para todos os pobres, não importa o tamanho de seus sonhos ou a classe de suas ambições.

O velho socialismo quer os pobres de mãos abertas, prontas para a esmola política, ou de mãos fechadas, prontas para a revolução violenta. O novo capitalismo quer os pobres de mãos cheias, para poder consumir, produzir e empreender.

A Economia Do Céu E Do Inferno

Golden Rule

Talvez você já tenha ouvido alguma versão da seguinte parábola:

Um homem é transportado até o inferno e o inferno é um imenso banquete. Carnes e frutas e massas e doces cobrem uma longa mesa de ponta a ponta. Mas espera! Como é que as pessoas sentadas ao redor da mesa estão gemendo de fome? O visitante então repara que todos têm seus cotovelos dobrados para fora de maneira que não conseguem levar os talheres até a boca. Tanta abundância e, ainda assim, tanta aflição, lamenta.

O homem é então levado até o céu. Lá está outra mesa com os mesmos alimentos, e lá estão outras pessoas com os mesmos cotovelos invertidos. Mas no céu todos comem com satisfação. Cada pessoa alimenta quem está ao seu lado.

Ouvi essa alegoria pela primeira vez da boca de um cantor brasileiro. Caetano, ou Gil talvez Chico, contava essa estória em um dos comerciais da campanha Natal Sem Fome, que passavam na TV em 1994. A mensagem ficou comigo: o abismo entre o paraíso e a danação pode estar numa pequena diferença na forma como as pessoas reagem às mesmas circunstâncias. O inferno é o egoísmo dos outros, o céu é o altruísmo para com os outros.

Quando comecei a estudar economia e liberalismo, passei a rejeitar a parábola como representativa do lado negro da ética altruísta. Perdidos na beleza da metáfora, esquecemo-nos de que aqui na terra os seres humanos foram feitos com cotovelos que se voltam para dentro. Dobrá-los para fora não melhora a vida de ninguém. Os humanitários de TV pareciam querer construir seu céu quebrando nossos cotovelos até que todos sejamos obrigados a depender do braço alheio. O cotovelo humano voltado para dentro me parecia apenas mais uma evidência que o ser humano foi feito para servir a si próprio.

O significado real da parábola só se esclareceu quando fui ler Alexis de Tocqueville. O segundo livro de Democracia na América chama atenção para uma curiosa distinção americana. Enquanto na Europa aristocrática se falava das virtudes do sacrifício desinteressado, nos Estados Unidos democráticos as pessoas enfatizavam a utilidade pessoal nas doses diárias de pequenos sacrifícios. ”O amor esclarecido por si mesmos”, dizia Tocqueville sobre os americanos, “os leva sem cessar a se ajudar uns aos outros”. Ele chamava essa interseção entre caridade e utilidade de interesse corretamente compreendido, ou interesse esclarecido. Percebi que céu e inferno na parábola do cotovelo não contrastavam o altruísmo em oposição ao egoísmo, mas o interesse esclarecido em oposição ao interesse emburrecido.

Se as pessoas entenderem que o bem estar de seus vizinhos é contrário ao seu próprio bem estar, o interesse próprio pode lhes fazer mergulhar em “vergonhosas misérias”, dizia Tocqueville “com medo de sacrificar algo de seu bem estar à prosperidade de seus semelhantes”. Entender que servir ao próximo constitui parte do seu próprio bem estar firma a sociedade nas bases da cooperação humana.

Em linguagem de escolha racional, podemos dizer que os jogadores do inferno acham que estão em um dilema do prisioneiro. Aos seus olhos, o custo de servir ao próximo parece superar o benefício de ser servido. Uma mera mudança de percepção seria capaz de transformar o equilíbrio da fome infernal no equilíbrio da satisfação celeste. Basta esclarecermos nosso interesse próprio para que um dilema do prisioneiro passe a ser percebido como um jogo de coordenação.

Ao conjugá-la com o interesse esclarecido de Tocqueville, fui percebendo a profundidade econômica da parábola dos cotovelos. De certa maneira, todos nós humanos temos nossos cotovelos econômicos enrijecidos. Sozinhos, somos capazes de quase nada. Nem mesmo de fazer um lápis ou uma torradeira. Se tivéssemos que sobreviver em auto-suficiência, a maior parte da população mundial pereceria mais rapidamente que o menino do Into The Wild. É a cooperação econômica com outras pessoas que nos veste, alimenta, educa, e nos permite ver a vida como uma jornada em vez de uma curta agonia.

O fundamento econômico de toda a civilização, de qualquer sociedade humana, é a possibilidade de cooperação, “o fato de que o trabalho efetuado valendo-se da divisão do trabalho é mais produtivo que o trabalho solitário”, como escreveu Ludwig von Mises, “e o fato de que a razão humana é capaz de perceber esta verdade.”

Assim como a efetividade da cooperação não conseguiria existir se houvesse uma inimizade inata, uma inveja insuperável entre as pessoas, também os laços de amizade e o sentimento de empatia que imaginamos existir entre os habitantes do céu metafórico dependem da possibilidade dos ganhos mútuos da cooperação.

Esses ganhos mútuos da cooperação permitiram o progresso social que vimos nos últimos séculos. Se a escravidão fosse mais produtiva que o trabalho voluntário, as ineficientes sociedades abolicionistas iriam se tornar cada vez mais vulneráveis à dominação externa. Os abolicionistas de ontem teriam se tornado os escravos de hoje. A história tem demonstrado o contrário, que a vitória do abolicionismo é em parte uma vitória dos ganhos mútuos da cooperação humana.

A biologia chega a conclusões semelhantes quando percebe que a evolução das espécies não é apenas um exercício de competição, como também um alargamento da cooperação. Desde a cooperação entre bactérias que se unem dentro de uma mesma membrana até a cooperação entre vespas que dividem o trabalho entre a rainha e os operários. Os insetos que passaram a cooperar em colônias obtiveram mais sucesso que o resto. O psicólogo Jonathan Haidt explica que apesar dos “insetos coloniais representarem apenas 2% de todas as espécies de insetos, em um curto período de tempo eles dominaram os melhores locais para a alimentação e a reprodução, empurraram seus competidores para a margem e alteraram a maioria dos ecossistemas terrestres.”

Da mesma maneira, foram as nações mais cooperativas da Terra que acabaram atingindo grau mais alto de prosperidade e influência. Diferente “das sociedades de formigas, abelhas e vespas”, dizia Mises, “o traço característico da sociedade humana é a cooperação propositada.” Nós cooperamos de maneira consciente e deliberada para atingir determinados fins. O progresso econômico depende da expansão de nossa percepção empática e de nossa prática cooperativa. Por isso o cosmopolitanismo da cooperação humana trazido pela globalização é algo tão maravilhoso.

Quanto a assuntos da pauta do dia, a parábola dos cotovelos pode servir para explicar a mentalidade protecionista em geral, e, em específico, os entraves nas negociações multilaterais da OMC na rodada de Doha. Os políticos tratam acordos de cooperação internacional como a matriz do dilema do prisioneiro. Não importa se os países estrangeiros abrem ou fecham suas fronteiras à circulação de mercadorias; os governos nacionais sugerem que ‘o meu país sempre se dará melhor se mantiver suas barreiras levantadas’. O Brasil chega ao ponto de rever os termos do comércio com o México a partir do momento que as exportações das montadoras mexicanas ultrapassam as nossas. A diplomacia comercial é tão avessa à ideia de permitir que seus países sirvam aos demais que sequer percebem que a única forma para cada país prosperar é receber dos outros aquilo que ele não consegue produzir a tão baixo custo. Tome Suíça e Chile por exemplo. Os cotovelos suíços não conseguem produzir vinho e os cotovelos chilenos não conseguem produzir relógios. Mas os braços chilenos podem dar vinho aos suíços que lhes recompensam oferecendo-lhes relógios.

Assim como um marxista que vê seu trabalho intelectual na formação de consciência de classe, o liberal também pode se achar num projeto socrático de esclarecer às pessoas qual o seu interesse esclarecido (além de tentar mudar as instituições de modo que o interesse das pessoas seja praticado como se esclarecido). Parte do mal na política vem da ignorância dos que acreditam que seu interesse individual ou enquanto membro de um grupo é irreconciliável aos dos outros indivíduos ou grupos da sociedade. Cabe ao liberal fazê-las perceber que, ao servir aos demais, ela está servindo a si própria; que a bifurcação separando um céu de prosperidade de um inferno de pobreza está na diferença que Tocqueville encontrava entre a América e a Europa do seu tempo:

Não creio, tudo bem pesado, que haja mais egoísmo entre nós do que na América; a única diferença é que lá ele é esclarecido e aqui não. Cada americano sabe quando sacrificar parte de seus interesses particulares para salvar os demais; nós queremos salvar tudo e com frequência pomos tudo a perder.

Em vez de repetir os clichês daqueles liberais de egoísmo mesquinho, Capitalismo Para Os Pobres propõe expandir a abrangência da empatia e da cooperação humana para que alcancem os mais pobres da sociedade. Os ricos brasileiros não percebem que é do seu interesse que os pobres tenham acesso a trabalho, crédito, comércio, empreendedorismo e consumo. O Capitalismo Para Os Pobres se posiciona contra a atitude exclusivista do brasileiro em acreditar que os imigrantes do nordeste empobrecem as capitais do sudeste, que a inflação é causada pelo maior consumo da classe C, ou que o problema da infraestrutura  brasileira são os pobres comprando carros e passagens aéreas para engarrafar a rua e transformar o aeroporto numa rodoviária.

Enquanto pensarmos na estreiteza desse interesse emburrecido, os pobres continuarão reservados a uma segunda mesa abastecida com as migalhas que caem da mesa dos ricos. Realizar o Capitalismo Para Os Pobres é aumentar o número de cadeiras para que todos, pobres e ricos, alimentem-se do grande banquete da cooperação humana.

Do Your Job!

laranjas

“You should do your job!”, fala o comediante Louis CK para você de vinte anos que tem um emprego, mas faz tudo de má vontade. Veja o vídeo:

Um sujeito de vinte anos “não tem ideia de como o mundo funciona”. Se crê “interessante demais” para realizar trabalhos medíocres e “acha que merece algo melhor.” Merece tanto quanto uma laranja que só sabe chupar os nutrientes da árvore, diz CK:

Você não tem nenhuma habilidade nem nada para oferecer para ninguém no mundo. Por duas décadas você está apenas recebendo e sugando, educação e amor e comida e iPods, e sugando e julgando…

Alguns comediantes já foram acusados de roubar piadas de Louis CK. Vou aproveitar para acusar Louis CK de roubar a piada de um dos sujeitos mais engraçados do século XIX. Em Economic Harmonies, o economista Frederic Bastiat fazia sobre o estudante francês a mesma observação que CK faz hoje:

Ninguém pode negar que a sociedade coloca à sua disposição comida, roupa, alojamento, diversão, livros, instrução – uma imensa variedade de coisas que levaria um bom tempo só para explicar como foram produzidas, para não falar nada sobre como realmente produzi-las. E em troca de todas estas coisas que demandaram tanto trabalho, suor e dor, tanto esforço físico e mental, maravilhas de transporte, tantas invenções, transações… quais serviços nosso estudante prestou à sociedade? Nenhum.

Mas Bastiat não quer apenas fazer os estudantes se sentirem mal. Ele está interessado em responder a uma pergunta que raramente fazemos: como alguém pode ter acesso a tantos bens materiais, a tantas coisas que outras pessoas produziram sem gerar nada de valor econômico para a sociedade?

A resposta de Bastiat envolve uma complexa rede de divisão de trabalho, poupança, finanças e outros elementos do progresso capitalista:

O pai desse estudante, que era um médico ou um advogado ou um empresário já prestou serviços – talvez para a sociedade chinesa – e recebeu em troca, não serviços imediatos, mas certificados para serviços devidos, os quais pode exigir pagamento no momento e lugar e da forma que ele achar melhor. Hoje a sociedade está pagando por estes serviços passados e distantes; e, espantosamente, se nós fôssemos seguir em nossas mentes as correntes de transações incessáveis que teriam que acontecer antes que o resultado final fosse alcançado, ele deveria ver que cada um foi pago pelas suas dores; que estes certificados passados de mão em mão, às vezes se dividem em frações, às vezes combinadas em quantias maiores, até que pelo consumo do nosso estudante a conta total foi balanceada. Este não é de fato um fenômeno notável?

É mesmo notável que a humanidade tenha conseguido transformar o trabalho passado em títulos futuros a bens e serviços que chegam até nós. Todo o capital e as instituições que garantem nossa sobrevivência hoje é trabalho fossilizado ao longo de séculos.

A observação de Bastiat pode deixar o estudante admirado, mas será que o faz se sentir melhor por ser uma laranja parasita? Afinal, o que ele fez para merecer tudo isso além de nascer na época certa e no país certo?

Não há como pagar todas os membros das gerações anteriores pelo progresso econômico, científico e civilizacional que aproveitamos hoje em dia. Você não conseguiria fazer nem um lápis para escrever um cartão de agradecimento.

Mas há algumas maneiras de não se sentir uma laranja parasita. Uma delas é desmerecer a própria noção de mérito. Você pode acreditar, como dizia Rawls, que todos os atributos genéticos, sociais e econômicos de uma pessoa são arbitrários. Logo, ninguém nunca mereceu nada do que recebeu, muito menos merece alguma coisa de você.

Outra maneira é inverter o conceito de merecimento ao avesso e abraçar sem medo o padrão de distribuição marxista: de cada um de acordo com sua habilidade para cada um de acordo com sua necessidade. Como estudantes estão cheios de necessidades, mas sem muita habilidade, são os membros produtivos da sociedade que estão em dívida para com eles. O papel dos estudantes é cobrar essa dívida.

Mas há uma terceira maneira de lidar com essa questão de dívida social. O estudante pode aceitar seu papel de laranja parasita e trabalhar para que no futuro suas sementes se tornem as laranjeiras que irão nutrir novas laranjas.

“Há mais de uma forma de ser merecedor de algo,” escreve David Schmidtz em Os Elementos da Justiça. Talvez você concorde com Rawls que ninguém merece nada do que recebe porque ninguém foi responsável pela sociedade, época, família ou carga genética com que nasceu. Mas Schmidtz nos convida a deixar de lado o elemento compensatório do merecimento e focar no seu elemento promissório. Mesmo que você não seja a causa daquilo que recebeu até hoje, é possível se fazer merecedor: Às vezes merecemos X com base no que fazemos após recebermos X.

Você nunca conseguirá dar a sociedade humana mais do que ela te deu. Ainda assim pode haver mérito na forma como você lida com uma oportunidade recebida. Schmidtz dá um exemplo:

Dois estudantes recebem bolsas de estudo. Um se esforça ao máximo e tira notas excelentes. O outro passa o primeiro ano indo de uma festinha a outra até ser pega colando, o que determina sua expulsão da outra universidade. Estas duas condutas diferentes não nos dizem nada sobre qual dos dois era mais merecedor de ter recebido a bolsa de estudos?

Em vez de olhar para tudo o que você já consumiu da sociedade, vislumbre tudo o que você pode produzir para a sociedade. Faça parte da rede produtiva que continuará o progresso econômico por mais uma geração. Em vez de se perguntar, quem sou eu para merecer tudo isso, se pergunte, quem eu posso me tornar para ser merecedor de toda a educação, amor, comida e iPods que recebi de outras pessoas?

Exerça sua cidadania capitalista, e aja com a consciência de que os benefícios que você produz para a sociedade são maiores do que os custos que você impõe sobre ela. Ou, para abreviar, “do your job!”

A Intuição Que Não Sabe Calcular

cerebrodemanteiga

Responda rápido à seguinte pergunta:

Uma bola e um taco custam R$1,10
O taco custa um real a mais que a bola
Quanto custa a bola?

Respondeu?

O primeiro resultado que veio à sua cabeça foi 10 centavos, não foi? Agora aproveite para fazer a conta com calma e conferir o erro intuitivo. Se a bola custasse R$0,10, o taco sozinho custaria R$1,10 e os dois juntos custariam R$1,20. Dado que a bola custa X e o taco custa X+1, então 2X+1=1,10. Logo, a bola custa 5 centavos.

Quando o psicólogo Daniel Kahneman aplicou a questão a estudantes universitários nos Estados Unidos, “mais de 50% dos alunos em Harvard, MIT e Princeton deram a resposta intuitiva – e incorreta.” Kahneman usa o exemplo da bola e do taco em Rápido e Devagar para demonstrar que não basta inteligência para resolver as questões em que nossa intuição nos aponta a direção errada. Precisamos realizar um esforço mental aritmético para corrigir as sugestões erradas da nossa intuição.

Professores de Harvard também erram. Os economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart passaram os últimos dias sendo ridicularizados por seus críticos depois que um aluno da UMass descobriu omissões na tabela de Excel utilizada no influente paper “Growth in a Time of Debt”. Depois da correção, o crescimento econômico de países com dívidas em 90% do PIB deixa de ser recessivo e passa a ser visto como positivo. Rogoff e Reinhart têm inteligência analítica de sobra. Mas a detecção de falácias no dia a dia exige mais que habilidade lógica. Exige também cuidado e esforço cognitivo.

Passando da academia para a política, preste atenção no silogismo abaixo:

A inflação se mede pelo aumento de preço dos produtos.
Parte do preço dos produtos é imposto.
Logo,
Se reduzimos os impostos de alguns produtos, reduzimos a inflação.

Para a maioria das pessoas, talvez, esse raciocínio parece intuitivamente correto. Quando o governo faz cortes de impostos, ele está diminuindo o custo de um produto para seus consumidores. Esquecemos que quando se compra um produto mais seus impostos, estamos pagando por algo além do produto. Supostamente estamos financiando algum bem ou serviço que o governo comprará com o dinheiro do tributo. Retirar os impostos de um produto está na verdade diminuindo o que você está comprando. O economista Adolfo Sachsida explica em um vídeo exageradamente didático:

A incoerência entre intuição e lógica continua:

O preço do litro do etanol é menor que o do litro da gasolina.
Logo,
Aumentar a proporção de etanol em sua composição diminui o preço da gasolina.

Muitos também parecem concordar com essa conclusão – provavelmente aqueles que se esquecem de medir o preço do combustível em quilômetros rodados. Gasolina com mais etanol é menos eficiente e, portanto, um produto de qualidade inferior. Como essa mistura inferior atende pelo mesmo nome de gasolina, um aumento do preço real do combustível não precisa corresponder a um aumento do número exibido na bomba do posto.

O governo que combate a inflação diminuindo a qualidade da gasolina merece lugar nos manuais de economia, sob o título “controle de preços por deterioração de qualidade”. Estamos imitando os americanos que, durante a Segunda Guerra Mundial, escreve o economista David Handerson, “aumentaram a porcentagem de gordura nos hamburgueres” e “diminuiram o tamanho das barras de chocolate.”

Redução tributária e depreciação de qualidade podem ter apelo intuitivo como formas de solucionar a inflação, mas são práticas economicamente erradas. Tão erradas quanto a bola de 10 centavos. Se a história é um guia, governos começam manipulando os preços nos setores mais oligárquicos, estatais e controláveis, e a pressão inflacionária sobe na informalidade do varejo, onde o pobre faz suas compras. As causas assim como a solução da inflação são sempre monetárias.

Há um incentivo claro para que o Ministério da Fazenda pratique medidas de controle de preço. “Nos olhos do público, explica David Handerson, “o controle de preços desonera a autoridade monetária de responsabilidade pela inflação”.

Como resultado, as pressões sobre as autoridades monetárias para evitar uma recessão pode levar a uma continuação ou até a uma aceleração do crescimento excessivo da oferta monetária.

Handerson escreve isso em um verbete de enciclopédia. Não é nenhuma análise nova. É conhecimento tão antigo que já pode ser canonizado.

Diferente do problema da bola e do taco, falácias econômicas não se desmontam com a facilidade das quatro operações básicas. Não existem psicólogos nas escolas demonstrando aos alunos o funcionamento enganador da intuição humana em questões de política monetária. Professores de economia têm um trabalho de conscientização pública a fazer. Mais economistas deveriam seguir o exemplo do Sachsida. Até indo além: deveriam divulgar um abaixo assinado que mostrasse ao grande público o que pensam os economistas dos nossos políticos.

Diferente do problema da bola e do taco, nós de fato pagamos mais caro pelos erros elementares no combate à inflação.

O Paradoxo Dos Indicadores

Cidades Fantasmas na China

O Google faz regulares alterações no seu algoritmo de ranqueamento das páginas exibidas nos resultados de busca. O propósito é garantir que o conteúdo mais relevante apareça primeiro, corrigindo pontualmente as formas de manipulação do algoritmo por websites trapaceiros. A cada critério estabelecido como indicador de qualidade, os websites se modificam para melhor satisfazer o critério sem precisar melhorar a qualidade. Por exemplo, conteúdos melhores em geral recebem mais links a partir de outras páginas. Mas quando o número de links para uma página é tratado como um indicador da qualidade de conteúdo, sites de baixa qualidade começam a montar uma rede de páginas, todas de conteúdo inferior, linkando umas às outras. O indicador perde seu valor indicativo.

“Quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida.” Essa é a formulação mais comum da chamada Lei de Goodhart. O economista Charles Goodhart tinha em mente as metas econômicas estabelecidas pelos governos: “tão logo o governo tenta regular um grupo particular de ativos financeiros, eles deixam de ser indicadores confiáveis de tendências econômicas.” Por exemplo, se o governo brasileiro tenta controlar a inflação por meio do controle dos preços de um indicador como o IPCA, esse indicador torna-se menos confiável. Se o tomate se torna um proxy popular para a inflação, o governo tentará influenciar o preço do tomate para que ele reflita ainda com menos precisão o aumento inflacionário.

Eu entendo a Lei de Goodhart como a formulação específica de um problema genérico de nominalismo na política. Ela vai além de políticas macroeconômicas.

O blog Less Wrong lembra que a indústria soviética oferecia casos emblemáticos da aplicação da Lei de Goodhart:

Quando [uma fábrica soviética] tinha como meta o número de pregos produzidos, uma vasta quantidade de pequeninos e inúteis pregos eram fabricados. E quando a meta era na base do peso, produziam-se poucos pregos gigantescos. Quantidade e peso se correlacionam bem em um cenário pré-planejamento central. Depois que se tornaram metas (em diferentes momentos e períodos), perderam seu valor.

O governo brasileiro também serve de estudo de caso para a Lei de Goodhart na medida em que tenta planejar aspectos da sociedade. Por exemplo, a participação de uma minoria historicamente desfavorecida em vagas de cursos universitários costuma ser um bom indicador de tolerância e abrangência das oportunidades econômicas. Em sociedades tolerantes, o sucesso acadêmico está ao alcance até dos mais discriminados. Até que a entrada de minorias no ensino superior se torna uma meta do governo. A partir do momento em que se estabelecem cotas para minorias, a sociedade pode aumentar a participação das minorias em salas de aula ao mesmo tempo em que continua sem oferecer tolerância e oportunidades econômicas verdadeiras.

A proporção de pessoas matriculadas em instituições de ensino costuma ser uma boa medida do nível de educação. Em uma sociedade com alto valor de capital humano, alunos com capacidade de aprender frequentam aulas de professores com capacidade de ensinar. Até que o governo adota a meta (do Índice de Desenvolvimento Humano) de maximizar o número de cidadãos matriculados em instituições de ensino, do fundamental ao superior. As escolas são incentivadas a tratar as salas de aula como áreas de lazer e a aprovar o maior número de alunos, de maneira que a formação torna-se mais uma formalidade e menos uma empreitada intelectual. Aumenta-se o número de alunos em escolas sem assim aumentar o real conhecimento acadêmico ou técnico do país.

O PIB costuma ser uma boa variável de prosperidade. Em geral, quanto mais bens são “produzidos” na sociedade, melhor o nível de bem-estar de seus membros. Até que o aumento do PIB passa a ser uma meta política. O governo passa a realizar investimentos que aumentam o PIB, mas que não correspondem ao maior bem-estar humano, como a construção de pontes para lugar nenhum, de gastos militares extravagantes ou das cidades fantasmas que, conforme o vídeo abaixo, vêm sido construídas na China:

O número de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza costuma ser um bom indicador da gravidade da miséria em um país. Renda baixa significa baixa produtividade e impossibilidade de consumo. Até que o governo passa a concentrar seus esforços para focar na linha da pobreza. Programas de transferências de renda reduzem a camada de pessoas abaixo da linha de pobreza sem aumentar a sustentabilidade dos pobres. A linha deixa de indicar a real capacidade de um país em erradicar a pobreza.

Como mitigar os efeitos da Lei de Goodhart? Uma opção é diminuir a confiança na capacidade planejadora do estado e permitir que empreendedores entrem em competição para descobrir métricas cada vez melhores. Entre o Google e as fábricas soviéticas há um oceano de capitalismo.